Odenildo Sena

27 Jul

O marujo e os brinquedos

Queria um barco. A princípio, não entendi bem. Pedi que me explicasse. Queria ter um barco. Um barco mesmo, de brinquedo. Não vi nenhum problema. Era uma justa aspiração infantil. Apontei para a mesinha no canto da sala, onde desfraldava imponente seu par de velas o Rainha do mar, presente de um querido amigo tunisiano que percebera, em visita a um centro de artesanato em São Luis do Maranhão, o meu encanto por barcos a vela. Mesmo me remoendo em ciúmes, transferi oficialmente a ele a propriedade daquele precioso bem. Peguei o Rainha com as duas mãos e, com os cuidados de quem carrega um recém-nascido, coloquei-o em suas mãos. Pelo tom de formalidade, a cena lembrava a passagem de comando entre o capitão, velho marujo que caíra na compulsória, e um recém-promovido oficial que recebia naquele momento o desafio de assumir os destinos daquela gloriosa nau. Para minha surpresa, aquele marinheiro de primeira viagem manteve os braços estendidos segurando o barco e, num gesto de desprendimento pela justa promoção, olhou nos meus olhos e sentenciou que não queria aquele barco. Eu quero fazer um barco de madeira com você! Eu não quero um barco pronto! Quebrado o protocolo da cerimônia e negociada a possibilidade de atender aquele seu pedido, foi inevitável dar a ficha por caída e voltar ao palco de minha meninice nas ruas e quintais de São Raimundo, quando construíamos nossos próprios brinquedos. Lembro-me da operação para construir um cata-vento com restos de madeira e pedaços de lata de óleo e o desafio de engenharia para içá-lo até a parte mais alta do telhado da casa. E as catapultas de nossas batalhas romanas, com seus lançadores de bolas de argila impulsionados por tiras de câmaras de pneus, que recolhíamos nos terrenos baldios? E a paciência com que trabalhávamos a cadeia produtiva dos nossos jogos de botões pelas calçadas? Consumíamos horas e horas que iam desde a cata dos caroços de tucumãs mais graúdos, passavam pelo trabalho de serrá-los ao meio, sempre com risco de esfolar os dedos, e lixar pacientemente diversas vezes até o ponto de receber a cera de carnaúba, toque final que dava um extraordinário brilho aos heróis que representavam nossos times e jogadores preferidos. Tem razão o marujo aqui de casa em não querer comandar o Rainha do mar. Os brinquedos prontos e sofisticados não representam nenhum desafio. O fascínio está no trabalho de vê-los surgir das próprias mãos.

 

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