Odenildo Sena

10 Ago

Frases de minha mãe

Dos quinze rebentos que trouxe ao mundo, nascidos sob os cuidados de uma parteira de confiança, apenas sete fincaram pé na vida e nela buscaram estímulo de força e coragem para vencer os desafios da pobreza. Dona Carminha nunca frequentou bancos escolares, mas nos alfabetizou a todos. Trago na memória a lembrança de nossa carteira escolar, uma bancada que funcionava como extensão de sua velha máquina de costura. Ali nos revezávamos, nem sempre por gosto, é certo, para desvendar a magia das palavras e das coisas. Mas, ao lado daquelas lições diárias, gosto mesmo é de voltar ao passado e reviver a facilidade que tinha minha mãe para criar frases de efeito. Algumas delas nada me diziam, outras eu levava dias para entender; outras, ainda, só ao longo do tempo e da vida eu fui decodificando. Mas cada uma de suas frases tinha um endereço certo e revelava o seu estado de espírito diante das mais variadas circunstâncias. Quando precisava enfrentar um ato de malcriação ou rebeldia de um dos filhos mais velhos, não hesitava em sentenciar, ainda que da boca pra fora: “Porta da rua, serventia da casa!” Em menino, nunca entendi o significado daquela frase, mas o contexto e o gesto apontando a porta principal da casa eram suficientes para se apreender o sentido ameaçador e indesejável daquele recado. Para os momentos em que sua compreensão não alcançava a plenitude dos fatos ou simplesmente queria manifestar surpresa diante de algum acontecimento inusitado, encarava o interlocutor e resumia sua opinião indagando-o de forma implacável: “Que diabo é dez que nove não ganha?” Já crescido, dei-me conta de que seu gesto de espanto sintetizado naquela pergunta sem nexo aparente representava uma profunda questão matemático-filosófica, que eu saiba, até hoje sem resposta. Para neutralizar comportamentos de prepotência ou grandeza sem o devido lastro material e histórico, minha mãe atacava com uma afirmação que desarmava e desconcertava o alvo: “Coitado, não tem o que um periquito roa.” Mas há uma frase particular da lavra de dona Maria do Carmo pela qual até hoje tenho especial predileção. Era sempre usada em situações limites, quando um dos filhos lhe tirava a paciência: “Vai atentar o Cão com reza, menino!” Dá pra imaginar a cena? Só dona Carminha mesmo…

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