O porteiro dos nossos sonhos
Dividia seu tempo entre duas atividades que nada tinham em comum. Durante o dia e até o final da última sessão, que começava às 8 da noite, era porteiro do cine Ideal. Depois, atravessava a rua e montava seu quiosque na lateral esquerda da praça. A partir de então, boêmios, notívagos e dançarinos, amantes dos deslizantes salões do Sul América, já podiam amenizar a fome deliciando-se com o famoso cachorro-quente do Davi Alcides. Corriam boatos maldosos sobre a origem das verduras que serviam de ingredientes básicos para o preparo do molho, principal atrativo do disputado produto. Alguns diziam serem recolhidas ao final da feira, na hora da xepa. Outros, clientes cativos, asseguravam tratar-se de insumo de primeiríssima qualidade. O fato é que, independente da controvérsia nunca esclarecida, nenhum estômago em situação limite de fome resistia ao cativante cheiro daquele molho, que se espalhava e circulava livremente a dezenas de metros de sua origem. Seu Alcides, como era mais conhecido, falava com seu vozeirão do alto dos seus quase dois metros de altura. A origem turca embaralhava um pouco a pronúncia, fato que lhe gerava incompatibilidade no trato de algumas palavras da língua portuguesa. Certo dia, ajudávamos na limpeza das poltronas de marca Cimo do cine Ideal, quando ele pediu que lhe trouxessem uma flanela. Queixinha - esse o nome do colega – não contou dúvida. Entregou-lhe uma panela. Ouvimos de longe um sonoro palavrão. “Eu não pedi ‘panela’, eu pedi ‘panela”. Davi Alcides era de poucas palavras, o que contribuía para alimentar sua fama de grosseiro e de trato pouco amigável. Sabíamos, entretanto, que aquela muralha aparentemente intransponível escondia um ser humano atento e sensível às injustiças sociais. Em particular ao que considerávamos uma suprema injustiça: não podermos conviver com os heróis que ganhavam vida na tela do nosso cinema. Postado em um banco de madeira ao lado da urna, onde depositava os ingressos recebidos dos clientes, observava os nossos olhinhos sonhadores, tristes e pidões. Num descuido do gerente, que montava guarda na entrada do cinema, seu Alcides nos encarava com uma piscada forte do olho direito e fazia um gesto com a cabeça. Era a senha para, numa questão de segundos, entrarmos no mundo do cinema e dos nossos sonhos. Grande Davi Alcides!


