Odenildo Sena

19 Out

Novo diário de bordo

Ocupei a poltrona 27-D, corredor, conforme marcado em meu cartão de embarque, posto de observação que considero estratégico. Vôo longo, três horas e quarenta e cinco minutos, São Paulo-Manaus. Conforto padrão Gol. Largo e confortável corredor central onde, minutos antes, havia presenciado o entalamento entre um passageiro, de porte franzino, e uma mala daquelas que ocupam altura e largura do bagageiro, transportada por uma senhora um pouco acima do peso que, esbaforida, suando feito chaleira, quase em estado de desespero, brigava por uma poltrona que não era a sua. O comissário precisou intervir. Não só para desatar o nó, que já provocara um longo congestionamento de malas e passageiros ao longo do corredor, como também para convencer a criatura entalada de que a sua poltrona era a 12-A e não a 21-A. Nova confusão. Mala em punho, olhos esbugalhados, numa espécie de abre-alas, ela resolveu partir rumo à fileira 12, no contra fluxo, disposta a não respeitar obstáculos em seu percurso. Não sei se por temor à mala ou à sua fúria, milagrosamente o caminho se abriu como o Mar Vermelho. Contornada a escaramuça, dei-me conta, feliz, de que as duas poltronas à minha direita estavam vazias, o que me permitiria administrar o espaço com o absoluto conforto que só a Gol oferece. Contei com o ovo da galinha antes do tempo. Senti a pressão de uma enorme sacola até o talo de plantas sobre o meu ombro esquerdo. Era uma criatura agasalhada para um frio que, se viesse, surpreenderia os mais estudiosos especialistas em mudanças climáticas. Depois de me obrigar a conviver de perto com alguns talos de plantas que insistiam em fugir da sacola, sentou-se, mostrando-me, sem que eu tivesse solicitado, o cartão de embarque que indicava a poltrona 27-F. Para minha surpresa, o vizinho estava com o Rexona inteiramente vencido! Para meu desespero, a única poltrona livre era a 27-E. Era trocar seis por meia dúzia. Estóico, preparei-me para aquela adversidade sem saber que era só o começo. Após a decolagem – justo o que eu temia –, ele mudou-se para a 27-E, exatamente ao meu lado, alegando medo de viajar na janela. Haja cookies, suco de laranja caseiro e muita paciência.

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