A tropicália falida do Caetano
A princípio, julguei tratar-se apenas de comportamento oportunista e preconceituoso de quem, com deboche e excentricidade, usa a mídia como veículo de autopromoção. Mas a coisa ficou a martelar meu juízo. A inquietar meu sentimento de cidadania. Aquela declaração do senhor Caetano Veloso, como que por encomenda ao mais conservador dos jornalões, havia me tirado do sério. Para ele, Lula é um analfabeto. Ora, é fato que o ex-metalúrgico, pelas circunstâncias que a vida lhe impôs, formalmente cursou apenas o ensino fundamental. O seu maior título escolar foi o de torneiro mecânico no SENAI. Mas daí taxá-lo de analfabeto só pode ser fruto de profunda ignorância ou de patético ato falho revelador do grosseiro comportamento de quem engana almas e mentes há décadas. Como naveguei em tantas e desafiadoras canções do baiano, prefiro ficar com a primeira opção. Estou aqui a me lembrar de um livro onde a educadora Magda Soares assinala que as práticas de letramento, que envolvem as práticas sociais acumuladas ao longo da vida, vão muito além do processo de escolarização e são responsáveis “por reforçar ou questionar valores, tradições e formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais”, o que supera o conceito tradicional de alfabetizado e analfabeto. Caetano não tem o dever de conhecer esses princípios, mas não tem o direito vomitar publicamente suas impropriedades. A mesma Magda ressalta, ainda, que “o analfabeto é aquele que não pode exercer em toda a sua plenitude os seus direitos de cidadão”. Como é que alguém que chegou à presidência da República e, após quase oito anos no cargo, recebe o carinho e a aceitação de 80% do povo brasileiro não terá exercido seus direitos de cidadão? Como considerar analfabeto quem – e agora apelo ao ex-ministro Delfim Netto – se dispôs a “desafiar o humor de um regime autoritário, criar o maior sindicato obreiro do Hemisfério e, sem passar pela academia, sem ao menos ler Gramsci, Althusser, Keynes ou Schumpeter, tornar-se o ‘cara’ que conduziu o grande país a vencer a recessão antes da maioria dos principais protagonistas globais?”, para ficar só nesses exemplos? Qual analfabeto teria conhecimento e habilidade política para deter o mérito “de ter trazido ao convívio da contemporaneidade dezenas de milhões de brasileiros”, num extraordinário trabalho de inclusão social? Há que se perdoar a ignorância e se compreender o ranço preconceituoso de Caetano, mas não se pode dizer que ele é analfabeto. Como analfabetos não eram Patativa do Assaré, Gonzagão, Cora Coralina, Helena Meireles, Mestre Vitalino, João do Valle, Manoel Querino, Lupicínio Rodrigues, Machado de Assis e tantos outros que agora não me vêm à memória.


