Odenildo Sena

30 Nov

Pelo viés da manipulação

Não, não quero entrar no mérito da questão. Não tenho conhecimentos técnicos nem jurídicos para tomar partido e dizer se o italiano Cesare Battisti deve ou não ser extraditado. Mas tenho me alimentado com o que a mídia vem oferecendo de informações e, sobretudo, opiniões. Opiniões, porque hoje o que se vê são jornalistas e editores assumindo o papel de zelosos guardiões da sociedade e ditando lições do que é certo ou errado, do que deve ou não ser feito, do que é juridicamente aceito ou não, do que é bom ou não para nós, pobres mortais. Tudo isso num caráter de infalibilidade que dá inveja ao papa, a quem a igreja católica atribuiu tal prerrogativa, salvo engano, ainda no reinado de Pio XII. Embarco nesse tema a propósito de matéria (e não artigo assinado) publicada em número recente da Carta Capital sobre o julgamento do caso Battisti, no qual o STF entendeu que a decisão de extraditar ou não o italiano é competência exclusiva do presidente da República. A rigor, o fato estaria aí encerrado, mas é mandado pras cucuias logo na abertura do texto, quando o anônimo jornalista supõe que Lula teria lamentado a decisão do supremo. Não bastasse isso, há na sequência uma série de manobras discursivas, algumas bem rasteiras, outras, puro sofisma, outras, ainda, intimidação, com o claro propósito de convencer os leitores mais desatentos de que, a despeito da decisão final caber a Lula, como manda a lei, sua alternativa única só poderá ser a extradição, o que curiosamente coincide com a reiterada defesa que a revista vem fazendo, em textos assinados, desde que o caso veio à tona. Coisas do tipo “Lula enfrentará ‘um desgaste’ (os destaques são meus) internacional desnecessário”; “estimulará o ‘recrudescimento’ de conflitos com parte do STF”; “o Supremo ‘deu autonomia decisória’ ao presidente, mas ela não pode ser desconexa”; “nunca antes o Executivo deixou de cumprir uma extradição decidida pela Corte”; “cada um dos argumentos brandidos por Tarso Genro, para justificar a concessão de refúgio, foi ‘sumariamente desmoralizado’ pelos ministros”. Isso sem contar com o reforço do velho e surrado argumento de autoridade do tipo “vários ministros” do Supremo disseram isso (Quem cara-pálida?); “especialistas ouvidos” disseram aquilo (Quem, de novo, cara-pálida?); “um advogado constitucionalista” sustentou aquilo outro (Qual o nome dele?); “outro especialista” avaliou desse ou daquele jeito (Quem é a sábia criatura?). Ao final, o texto oferece um lampejo de factualidade, lembrando que a posição definitiva cabe ao presidente da República, mas a recaída é imediata: o anônimo jornalista questiona “se valerá a pena o desgaste”. Trata-se de um dos expedientes mais clássicos da manipulação discursiva. Faltou fidelidade canina aos fatos.

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