Odenildo Sena

14 Dez

A poltrona sumiu

Já tive oportunidade de presenciar as mais hilariantes situações promovidas pelas nossas competentes empresas aéreas, mas por essa, confesso, não esperava. Já aconteceu, acreditem, da aeronave pousar no aeroporto de Brasília, estacionar na ponte e, na hora H, a porta dianteira emperrar. Não houve jeito que desse jeito. Depois daquele tradicional frenesi para desatar os cintos e ocuparem o corredor do avião, os passageiros, já cansados de esperar, tiveram que voltar aos seus assentos. O chaveiro mais próximo, penso eu, foi acionado e, depois de quase quarenta minutos, foi-nos dada a liberdade. Bem poderíamos ter processado a companhia por cárcere privado. Outra vez, aguardava no mesmo e confortável aeroporto a hora do embarque para Manaus. A voz estridente e sempre aflita e desesperada do funcionário avisa, sem nenhum pudor, que a autorização para o embarque estava dependendo apenas da chegada da tripulação. Bem humorada, uma senhora que trabalhava com aquela maquininha detectora de metais não contou dúvida e soltou: “apertem os cintos que o piloto sumiu!” Outra situação foi bastante cômica. O avião estava em uma pista lateral e os passageiros fomos levados de ônibus, o detestável embarque remoto. Todos acomodados, fechadas as portas, nada da aeronave movimentar-se. Diante da paciência já estourada daquelas almas reclusas, o comandante pediu desculpas pela demora e anunciou que não havia, até aquele momento, um trator disponível para empurrar a aeronave até a pista de taxiamento. Fazer o quê? Mas isso não é tudo. Dia desses, juro que faltava um pedaço do avião da velha Varig que fez o trecho Brasília-Manaus. Estava sem aquela divisória que separa os passageiros da primeira fileira de poltronas da porta do velho e cansado Boeing. Os avisos de afivelar cinto tinham sido improvisados com etiquetas da Pimaco. Reclinar a poltrona? Nem pensar. O mecanismo estava enferrujado. Mas por essa última, juro que eu não esperava. Contando ninguém acredita. Havia feito o check-in pela internet e escolhido a poltrona. Já diante do balcão, para despacho da bagagem, ouço meu nome reverberando nas caixas de som, pedindo que eu procurasse um funcionário da empresa. Como eu já estava diante de um, perguntei do que se tratava. Logo veio a inusitada resposta. É que a poltrona 1-C que está em seu cartão de embarque não existe, senhor. Vamos ter que trocá-la. Então vocês queriam que eu viajasse na parte externa da aeronave? Claro que não. Vamos resolver esse problema. Não existe a 1-C, mas existe a 2-C. Durma-se com um barulho desses.

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