A amassadeira
Sabia que com isso não se brinca. Minha mãe sempre nos alertava. Não prometa nada a uma criança sem cumprir. Claro que o fiz com a melhor das intenções. No meio de uma produtiva conversa sobre brincadeiras de minha infância, cravei o compromisso de que, tão logo sobrasse um tempinho, construiria uma amassadeira pra ele brincar. De pronto, a natural curiosidade dos seis anos instalou-se. Queria saber o que era. Fiz lembrá-lo da patriótica operação tapa-buracos da prefeitura, que havia premiado a nossa sofrida rua alguns dias atrás. Aquela máquina que tem um rolo de ferro pesado na frente, que passa em cima pra ajeitar a rua? Respondi que sim, era aquilo mesmo. Mas como “a gente” vai fazer? Percebi, então, a sutileza matreirice do discurso infantil, já se incluindo como parceiro naquela empreitada. Tolice mesmo acharmos que, dentro das limitações de sua linguagem, uma criança não saiba se valer das inúmeras artimanhas discursivas de seu mundo. Ledíssimo engano. Pois bem, a carga de cobrança foi tão cerrada nos dias seguintes, que me vi na contingência de juntar ações às palavras. “A gente” se sentou solenemente em volta da mesa para reunir a matéria-prima necessária à fabricação da tal amassadeira. Diferentemente do tempo de minha meninice, quando o quintal da casa era o repositório de tudo aquilo de que precisávamos para nossas brincadeiras, dei-me conta da absoluta carência de componentes para esse fim no apartamento. Arame e barbante. Tive que comprá-los na loja de ferragens mais próxima. Lata vazia do velho e bom leite Ninho. Havia, mas o progresso plastificara a tampa, o que inviabilizava a obra. Fomos obrigados a sacrificar outro produto similar cuja tampa era de lata. Iniciamos a linha de produção. Com um parafuso descoberto no fundo de uma gaveta e o amassador de carne fazendo a vez de martelo, furamos um pequeno orifício no centro das laterais da lata, por onde fizemos passar um pedaço de arame de um lado a outro. E o pequeno fazia questão de colocar a mão na massa! Em seguida, unimos as duas pontas de arame, onde amarramos o barbante que permitiria arrastar o veículo. A inauguração foi solene. Passei-lhe o comando do equipamento e, com a expressão plena de felicidade, Eric começou a circular entre a cozinha e os quartos, com ar de quem havia acabado de conseguir um extraordinário feito tecnológico. Aos olhos de muitos, pode até parecer bobagem, mas a alegria estava no fato de ter construído o próprio brinquedo. Dei minha missão e minha promessa por cumpridas.


