A nova cara da ciencia
Certas conquistas são marcadas por discrição e silêncio, mas chega o momento em que precisam ser partilhadas publicamente, sob pena de, por falta ainda de uma cultura que lhes assegure vida permanente, elas correrem risco de descontinuidade. E, diante disso, o melhor caminho mesmo é construir cumplicidade com quem financia e se beneficia dessas conquistas: a sociedade. Refiro-me ao que vem acontecendo com algumas instituições públicas da área de saúde no Estado. Tradicionalmente limitadas à prestação de serviços e atendimento, elas começam a quebrar esse paradigma. Ao lado dessa competência que lhes é inerente, passam, também, a investir em pesquisa científica básica e aplicada. Com isso, saltam da mera repetição de procedimentos ditados por outros centros para a produção de novos conhecimentos, criando, assim, um ciclo virtuoso em que a prática tradicional, transformada em laboratório, gera avanços científicos que dão retorno a essa mesma prática. De modo bem objetivo, tais instituições passam de meras repetidoras a produtoras de conhecimento, ganhando competitividade e se transformando em centros de referência para o Brasil e para o mundo. Exemplo desse novo modelo é a nossa Fundação de Medicina Tropical, que dispõe hoje de sofisticados laboratórios onde se realizam exames até pouco tempo impensáveis no Estado, sem contar com uma massa crítica que, além de pesquisadores locais, envolve 10 doutores seniores de altíssimo nível vindos de outros centros nacionais. Esse esforço, para revelar apenas um dos tantos avanços, permitiu aprimorar um moderno tratamento para leishmaniose. Poucos sabem, por outro lado, que o Hemoan, na mesma linha, deu um salto decisivo nesse misto de atendimento e pesquisa e hoje comanda um respeitado projeto voltado para o estudo de células-tronco, com enormes benefícios para os portadores de doenças cardiovasculares. A Fundação Alfredo da Mata segue a mesma fórmula. Começa a montar uma equipe de pesquisadores e inaugurou recentemente um laboratório de biologia molecular que nada deve a outros grandes centros de pesquisa. Enfim, são fatos animadores que demonstram a importância de se ter, de um lado, gestores comprometidos com a ciência e a inovação e, de outro, uma agência de fomento com ações voltadas exclusivamente para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado. A sociedade só tem a ganhar. Eis uma boa pauta.


