Apagando a história
Tenho acompanhado com atenção a luta travada pelos estrategistas políticos com vistas à próxima campanha presidencial. De um lado, os petistas e partidos que seguem a orientação do presidente Lula na perspectiva de que a melhor forma de derrotar os inevitáveis adversários do PSDB é forçar a disputa plebiscitária, comparando o que foi feito durante os oitos anos de cada partido no governo. De outro, o demo-tucanato e seus aliados, que parecem querer fugir da comparação como o diabo foge da cruz. No meio desse embate, os lampejos aqui e acolá do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, mais recentemente, fez uma frustrada tentativa de decolagem nas páginas do Estadão e de O Globo que deixou seus colegas em polvorosa. Afinal, contrariando todas as evidências, queria porque queria bater contabilidade de feitos entre o seu governo e o de Lula. De qualquer modo, para quem já pediu que esquecessem o que havia escrito, não deixa de representar uma nova postura. Para completar, veio Ciro Gomes, com sua diplomacia Caterpillar e sentenciou pesado: “O Fernando Henrique virou uma âncora para matar qualquer um. Quem se ligar a ele perde a eleição”. Ora, nessas alturas do campeonato, é absolutamente normal que pretendentes e padrinhos políticos procurem pavimentar a estrada mais segura para a vitória, trabalhando com elementos de sua análise e convicção. Mas daí a desqualificar a história passada como elemento fundamental para se julgar o presente e projetar o futuro é sofisma dos mais deslavados, é forçar a barra ao extremo. É o que vêm tentando algumas figuras com a alegação de que não se pode ficar preso ao passado. Claro que não, mas é tautológico que a avaliação do passado me dará balizamento necessário para escolhas mais seguras no presente que se refletirão no futuro. Se esse mecanismo fizesse parte de nossa cultura, já teríamos varrido muitos políticos do mapa. O senhor Arruda, por exemplo, depois da peraltice da violação do painel do Senado sob a batuta de ACM, jamais teria sido eleito para governador do DF. Vejo, portanto, como bastante salutar, sim, a comparação entre os feitos dos governantes, seu comportamento, seu caráter, promessas feitas e cumpridas ou não. Afinal de contas, é esse conjunto que compõe a história de cada um e de sua trajetória. E com isso não se brinca.


