Paixão e cinema
O cinema foi minha paixão e minha vida por tantos anos! Dividia isso apenas com o dever de ofício, marcado de perto por dona Maria do Carmo, de frequentar as aulas do ginásio no Marquês de Santa Cruz, em São Raimundo. Mas o cinema levava sempre vantagem, o que certamente explica o meu desempenho mediano nas matemáticas e geografias da vida. Fazia qualquer negócio para não me privar daquele fascinante mundo, sem fronteiras entre a vida e a ficção. Tempo houve em que fazia parte do seleto grupo comandado pelo turco Davi Alcides, zelador e porteiro e encarregado da nobre missão de todos os dias, a partir das nove da manhã, fazer a faxina no salão, que abrigava em torno de 400 poltronas da marca Cimo, que precisavam estar à altura dos exigentes frequentadores da sessão das 20h. Era um ritual que começava pela varrição de cada fileira, para recolher as centenas de papeis de bombons da safra da noite anterior, seguida da aplicação, poltrona a poltrona, do velho e bom óleo de peroba, que dava o brilho, mas, na nossa pressa, deixava a superfície sempre lambuzada, controle de qualidade que era aferido por amostragem pelo seu Davi Alcides. Uma vez ao mês, nossa mão de obra era acrescida da lavagem do salão, à base de latas d’água na cabeça e abundante sabão tuxaua. Essa força de trabalho era movida pela recompensa do livre acesso que tínhamos às sessões diárias. Para isso, éramos orientados a chegar bastante cedo, a fim de driblar o gerente do cinema, sempre de terrível mau humor. Achávamos justa aquela recompensa e a cumplicidade do nosso preceptor, sobretudo pelo fascínio de vivermos na enorme tela o que era negado aos colegas da mesma idade. Aos domingos, a jornada era redobrada, mas a recompensa, também. Havia a matinê das 9h, para a criançada, a sessão das 13h, com dois filmes intercalados por um seriado que terminava sempre com nosso herói em apuros, motivo para não abrirmos mão da sequência no domingo seguinte, o filme das 16h, frequentado por aqueles que estavam iniciando namoro, e a tradicional sessão das 20h, voltada para o público adulto – e nós, naturalmente. Após cada sessão, iniciava-se o ritual de varrição. Nossos domingos, portanto, eram dedicados integralmente à Sétima Arte. Ao final, contabilizávamos gloriosamente quatro filmes e um seriado assistidos! O cine Ideal era o nosso mundo e o nosso cinema Paradiso.


