Odenildo Sena

16 Mar

As verdades de cada um

O comando de uma verdade não está naquilo que se diz, mas no como se diz e naquilo que se escolhe para dizer. Dito de outra forma, a verdade não está ancorada nas palavras, mas no modo como essas palavras são trabalhadas por cada um de nós. Penso até já ter falado sobre o assunto, mas não resisto em retomá-lo, motivado pela leitura de uma notícia que mereceu atenção dos jornais impressos locais na semana passada. Trata-se da divulgação dos dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acerca das perspectivas de demanda e oferta de vagas de trabalho para o corrente ano. Abro o Diário e lá está a manchete na primeira página: “Desemprego atingirá 30 mil trabalhadores qualificados”. A verdade me causa um leve sentimento de angústia. Leio as demais chamadas e cumpro meu espírito cartesiano de repetir o mesmo procedimento na primeira página de acrítica. Lá está: “AM criará 15 mil postos de trabalho”. Essa outra verdade me causa grande alento. Não, não há nada de errado nas manchetes dos jornais, mas é certo que cada uma das verdades terá diferentes impactos na cabeça dos leitores. Elas resultaram das diferentes escolhas – que nunca são gratuitas! – dos editores e dos repórteres que produziram a matéria. Ou seja, o fato é o mesmo, as escolhas, não. É fato a estimativa de que abrirão 15 mil novas vagas, mas é fato, também, que haverá um excedente qualificado de 30 mil que ficará desempregado. Estamos, portanto, diante de um fato e duas verdades. É fato, por outro lado, o primeiro jornal afirmar que o Amazonas é o 20º na criação de novos empregos, atrás ‘até mesmo’ dos vizinhos Pará e Rondônia, o que projeta um sentido depreciativo, como é fato o outro jornal ressaltar que, na região Norte, o Amazonas é o 3º estado em número de novos empregos em 2010, o que projeta um sentido mais positivo, como seria fato, também, afirmar que, dos sete estados da região Norte, o Amazonas fica ‘apenas’ atrás do Pará e Rondônia, o que projeta outro sentido, dessa vez de maior competitividade. Afora essas evidências, há, ainda, entre os fatos e as verdades, um largo espaço de manobra no interior do qual os usuários bem preparados podem pintar e bordar. Enfim e em síntese, usando de minha sagrada prerrogativa de síntese do Twitter, “as palavras são inocentes; seus usuários, não”.

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