Ciência e soberania
Não deixa de ser promissor. Afora alguns poucos que já transformaram isso em tradição e sabem que disso depende sua hegemonia e soberania, há uma espécie de febre alta a contagiar diversos países, que agora correm para tentar recuperar o que deixaram de investir no campo da ciência, da inovação tecnológica e da formação de pesquisadores de alto nível. Os americanos, que há décadas mantêm superioridade na área, já se deram conta da perda de terreno para os chineses e estão apostando pesado. Obama propôs ao congresso quase US$ 150 bilhões para o setor, considerado essencial para a recuperação econômica do país. A China, por sua vez, tem trabalhado com bastante voracidade, tendo superado os Estados Unidos em publicações científicas e hoje, em termos de investimentos na área, tem à frente apenas americanos e japoneses. Já a Rússia, antes tão poderosa, tem perdido terreno no cenário internacional de pesquisas. Correndo na outra ponta, a Argentina aumentará em 10% os investimentos em C&T, I, totalizando algo em torno de R$ 2,5 bilhões. Portugal anuncia aumento de 17,7%, com investimentos que chegarão a R$ 6,63 bilhões em 2010. Nada disso é gratuito. Países sem tradição em produzir ciência de ponta já perceberam que a geração de riqueza e poder político passam necessariamente por aí. É o caso do Brasil, que, desde 2003, vem mostrando serviço, ao ponto do Conselho de Ciência e Engenharia dos Estados Unidos, em seu último relatório bianual, apontar que “o Brasil é um dos países em que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento mais crescem no mundo”. Corroborando esse indicador, para o corrente ano o Ministério de Ciência e Tecnologia anuncia um orçamento de R$ 7,4 bilhões, o maior de sua história. O bom é que essa febre positiva tem repercutido nos estados, que hoje representam um braço forte no sistema nacional de C&T com aporte de recursos locais. Hoje, 24 dos 27 entes federativos possuem sua fundação de amparo à pesquisa, o que faz uma enorme diferença. Aqui, no Amazonas, essa febre tem-se mantido numa temperatura bastante elevada, sendo hoje o quarto estado que mais tem investido no setor. A euforia é grande, mas com as eleições que se aproximam começa-se a perceber certa inquietação na comunidade científica, que, em primeira mão, sabe que o Brasil tem hoje um papel de destaque em ciência e tecnologia, mas sabe, também, o tamanho do tombo e do atraso se os próximos governantes não mantiverem e ampliarem esse esforço, caminhando mesmo para tornar esses investimentos em intocável política de Estado.


