Odenildo Sena

26 Mai

Um texto no meio do caminho

Quem compra o doloroso e exaustivo desafio de escrever sabe disso. A relação entre o sujeito e o texto nem sempre é amistosa. Muito pelo contrário. O leitor que não se mete nessa encrenca embarca mesmo na ilusão de que escrever é um ato rotineiro como qualquer outro e não implica maiores sacrifícios. Engano. Ledo engano. Não é bem assim. É certo que, dependendo de razões que a própria razão desconhece, há situações passivas em que o texto em construção fica sob absoluto controle. Como se a gente dissesse: Olhe aqui, quem manda em você sou eu! Você vai fazer o que eu quero e vai pro rumo que eu escolher. Aí é bom demais. O ruim mesmo é quando se estabelece o conflito decorrente da desobediência e da insubordinação. O texto não dá a mínima pra você. Faz, como se dizia antigamente, ouvido de mercador. Você tenta de todas as formas dar um corretivo no danado, mas ele não se entrega e assume mesmo ares de pura arrogância. Vez ou outra eu tenho convivido com esse constrangimento aqui em casa. O computador é testemunha desses confrontos. Pra quem está duvidando do que digo, tenho provas dessa situação desconcertante e, até, humilhante pra mim. Acabo de acessar uma pasta com vários pedaços de textos rebeldes que fincaram pé pra não serem concluídos e ficaram no meio do caminho. E o pior é que eu sabia o que queria de cada um deles! Há, por exemplo, um pedaço em que eu falava sobre a escolarização da escrita. Pretendia mostrar o quanto a escola pode atrapalhar a aprendizagem da escrita quando artificializa o processo didático. Há outro, até bastante adiantado, onde eu discorria, ou melhor, discorreria acerca do fenômeno de que não são apenas as palavras que falam, mas o silêncio, também, que é sempre carregado de sentido. Pena, o texto ficou pela metade. Há outro, ainda, onde eu pretendia confessar que houve um tempo em que, por questões ideológicas, eu me recusava ler Roberto Campos ou Delfim Netto. Como eu perdi com isso. Não teria sido um bom texto? Vejo outro que não passou da primeira linha, mas dá pistas de que falaria sobre meu velho hábito de marcar e fazer anotações nas laterais das páginas dos livros que leio. Acreditem! Esse tinha até título! “Livro marcado pelo leitor”. Que droga! O que mais revolta é saber que teriam dado ótimos textos. Paciência. Um dia é do sujeito, outro, do texto.

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