Paranoia
Pode até ser um passageiro estado de espírito. Mas que tem me incomodado tem. Em verdade, o fato de não ter provocado inquietação alguma em outras pessoas é que tem me incomodado mais ainda. Andei reverberando por aí minhas preocupações, mas não consegui motivar criatura alguma a acolher meu mau presságio. Utilizei o meu sagrado espaço democrático no Twitter, na tentativa de mobilizar alguma alma, e nada. Até fiquei um pouco magoado com o marqueteiro do Obama, que espalhou aos quatro cantos que esse mecanismo da internet é bater e ver, tanto que o Barack teve sua eleição garantida pelas chamadas redes sociais. Mas aí não dá. Eu estou querendo demais. Pensando bem, devo ter superestimado o meu minguado número de seguidores, que está a anos luz de bater o astronômico recorde da apresentadora americana de televisão Oprah, cujas mensagens de 140 caracteres podem causar alegria ou comoção em milhares de seres viventes. Conversei pessoalmente com algumas pessoas sabidamente ansiosas e sofredoras por antecipação. Justiça seja feita, me ouviram com interesse no tema, mas não passou daí. Só aumentou a angústia de saber que eu estava na condição de um solitário angustiado. Ainda assim, meus botões me dizem que a coisa é séria. Imaginemos o seguinte: todas as mensagens, mesmo curtíssimas como exige a ferramenta, postadas no Twitter deixam de pertencer a quem as postou e passam a ter um único dono. Centenas de milhões e milhões de mensagens reveladoras, de forma ostensiva ou velada, do que pensamos, do que sentimos, do que gostamos ou não, de quem gostamos ou não, de quem admiramos ou odiamos, de nossas idiossincrasias, de nossas críticas, de nossas línguas ferinas e venenosas, mesmo após o incêndio no acervo do Butantã, de nossa formação política e ideológica, do nosso deboche, de nossas ironias, de nosso dia preferido para tomar a sagrada gelada, da tara do Jefferson Coronel por churrasco no sítio, de nossa paixão ou ódio pelo Vasco, Corinthias, Flamengo ou pela gloriosa seleção de estrangeiros do Dunga. Como diria um comunista de boa cepa, Deus meu, é um valioso banco de dados e de incalculável valor! Num eventual retorno à Guerra Fria estaríamos, como diria minha mãe, fritos na banha do periquito, todos nas garras do inimigo, que seria dono de nossas entranhas. Dele escapariam apenas os não tuiteiros. Pois bem. Saibam, pela última vez, que a biblioteca do Congresso Americano negociou com o Google a compra de todo o acervo de mensagens armazenadas na time line do Twitter. Impressão ou estou paranoico mesmo?


