A cachaça do Acácio
Nunca antes na sua história de clássico bebedor imaginou pagar tão caro por uma única dose da aveludada branquinha. Aliás, diga-se de passagem, sua interlocução com esse líquido milenar, derivado da cana-de-açúcar, é sempre marcada por um ritual digno da mais fina diplomacia daqueles que passaram pelos exigentes bancos do Instituto Rio Branco. Enquanto os outros, pobres mortais bebedores de cerveja, enchem seus copos e partem de imediato para as vias de fato, ele se impõe um cerimonial quase litúrgico. Primeiro, suspende a pequena taça um pouco acima de sua testa e, qual sacerdote glorificando o vinho, examina com atenção o produto. Só então, após dois suaves movimentos de cabeça aprovando a pureza e autenticidade do líquido, repousa-a contritamente sobre a mesa. Em seguida e sem trair a concentração, unge as bordas da taça com pingos de limão e, depois, para completar a liturgia, distribui com parcimônia algumas pitadas de sal sobre o limão. Vencidas essas necessárias etapas, entorna o sagrado líquido com elegância de causar inveja ao mais fleumático dos lordes ingleses. A paixão pela pinga o transformou no dedicado colecionador e estudioso que é capaz de adquirir a revista Playboy, arrancar as páginas que trazem o ranking das melhores cachaças e dispensar friamente o restante do conteúdo que tanto encanta mancebos dos quatro cantos do mundo. Mas, deixemos de lado esses detalhes e voltemos ao assunto inicial do texto. Dia desses, hospedado em um hotel onde participava de um grande evento, reuniu-se com os amigos para o justo relax, depois de um cansativo dia de trabalho e discussões. Dispensou, como sempre, o consumo da suada cerveja e deu início aos trabalhos, seguindo religiosamente todos os passos acima delineados e assumindo o que considera ser uma questão de honra e respeito à bebida dos deuses. Posto isto, despediu-se e bateu em solene retirada, não sem antes anotar em um guardanapo de papel o número de seu apartamento e o valor de sete reais, cobertura daquele inegociável e efêmero momento de prazer. Lá pelo avançado da hora, naquele estágio em que o garçom traz a conta sem que ninguém a tenha pedido, um espírito perverso guiado pela peraltice propõe que os quase seiscentos reais, a serem divididos entre os sete convivas remanescentes, tenham como destino o apartamento de Acácio. Trocados os olhares de cumplicidade, a proposta foi tácita e imediatamente aprovada. Não deu outra. No dia seguinte, ao solicitar ao recepcionista do hotel que passasse a régua em sua conta, tremeu dos pés à cabeça ao descobrir que havia entornado uma dose de cachaça que lhe custara R$ 636,00. Pura maldade.


