Odenildo Sena

20 Jul

O cerol do Calango

Há pouco tempo escrevi sobre o tema. Mas não me contive. Tudo por causa de uma foto no portal do Diário. Belíssima foto. Pelo menos aos meus olhos que, naquele momento, não eram os de hoje, mas os olhos vivos e inquietos de minha infância. A foto, na sensível perspectiva do artista, retratava um molequinho de costas empinando um papagaio que, por sua vez, tinha como cenário ao fundo o vão inicial da ponte sobre o rio Negro e as nuvens incandescestes que lhe serviam de ampla moldura. Não deu outra. Embarquei, de novo, no túnel do tempo e me vi nas ruas do bairro de São Raimundo tentando emplacar a subida de uma curica. Das espécies derivadas do papagaio, com certeza era a de menor prestígio. Sua confecção dispensava matéria-prima mais sofisticada como tala de buriti, armação, goma, papel de seda em variadas cores e grande experiência no ramo. Uma folha de papel que aliviávamos do caderno que minha mãe comprava na FENAME (Fundação Nacional de Material Escolar) era o suficiente para se transformar em uma curica. Em último caso, nada que uma folha de revista velha ou mesmo um pedaço de jornal encontrados na rua não resolvessem. Isso, mais alguns metros de linha de costura reduzidos com discrição da bobina da velha máquina de costura Singer de mãe, e a curica estava pronta para ganhar os céus. Quer dizer, nem tanto assim. Sua autonomia de vôo era bastante efêmera. O bom mesmo era poder saltar para o outro estágio, mas ai já dependia de amealhar alguns trocados com mãe e os irmãos mais velhos. Escolher um bom papagaio, a linha mais adequada e o cerol apropriado. Pra tudo tinha mistério. O Gilona, jogador de vôlei de quase dois metros, era imbatível na arte de fazer papagaio. Precisava encomendar com antecedência. Mas o que mais causava frenesi entre a pirralhada estava no segredo, guardado a sete chaves, do cerol do Calango. A especulação corria solta. Alguns atribuíam sua insuperável qualidade ao vidro de magnésia, de cor azul; outros, ao vidro das lâmpadas fluorescentes, que, moídos, dariam um enorme potencial de corte ao cerol; outros, ainda, juravam que as barras de cola, derretidas até certo ponto, eram a razão da qualidade daquele produto. Outros, por sua vez, acreditavam no toque final com três gotinhas de álcool. Pra encurtar a história, como o Calango reinava absoluto no mercado que envolvia os vizinhos bairros de São Raimundo e Glória, sempre que um adversário conhecido ensaiava trançar, gritávamos convictos: “Não entra que é o mesmo cerol, o do Calango!” Tempos depois, descobrimos estarrecidos que o bruxo Calango fabricava dois tipos de poção: a mágica, para seu próprio consumo, e a genérica, que abastecia a nossa ilusão. Passou a ser odiado.

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