Odenildo Sena

Livros

Palavra, poder e ensino da língua

Sobre o livro Palavra, poder e ensino da língua, assim escreveu Marilene Corrêa da Silva Freitas, Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, professora da Universidade Federal do Amazonas e atual Reitora da Universidade do Estado do Amazonas:


A palavra manipulada e o poder da linguagem


Nunca as forças sociais em jogo necessitaram tanto do domínio da ciência da linguagem. Esta afirmação soaria axiomática, não fosse a desigualdade estrutural um definidor das regras do jogo entre as classes na sociedade contemporânea. Sim, as classes falam! E como são poderosas as falas instrumentalizadas pela dominação. As variantes lingüísticas dos discursos de classe são, em suma, estratégias de efetivação e de renovação de poderes. A linguagem, como um dos constituintes que sustentam a realidade do homem e de sua distinção das coisas e dos objetos que o rodeiam, é processo que não se esgota em sua apresentação como meio e finalidade da história da humanidade; é cultura produzida pelos mais diversos modos de realização da existência, o que lhe permite ser, nas contingências das práticas sociais, um instrumento de reprodução do padrão lingüístico imposto como um modo de dominação cultural sutil e contínuo. Mesmo quando se apresenta como um discurso neutro de regras gramaticais, tecnologia educacional, prática pedagógica ou, simplesmente, como livro didático.


O impacto provocado por uma leitura aparentemente despretensiosa do ensaio publicado pelo professor Odenildo Sena (Palavra, poder e ensino da língua, EDUA, 132 p.) pode ser um grande estímulo para combater todo tipo de indiferença. Isso para não dizer que o efeito pode ser devastador para os mecanismos institucionais da reprodução ampliada que elegem a escola e o ensino da língua como lugar e pretexto de massacre cultural. Se o leitor for um professor, então, não escapará de ficar atento, do início ao fim, àquilo que pode estar sendo a sua prática mais freqüente de ampliar a perversidade da expropriação social: o uso do poder da palavra recoberto do caráter ideológico do discurso pedagógico sacramentado por uma legitimidade institucional hipócrita e demagógica.


Palavra, poder e ensino da língua é um estudo das entranhas do cotidiano do ensino da língua portuguesa. Apresentado sob o formato de oito capítulos, de narrativa direta e clara, não deixa de abordar profundas questões da lingüística para conduzir o leitor, mediante um tratamento acadêmico, às complexas relações entre linguagem e sociedade, pedagogia e política, poder e ideologia, temas que permeiam o ensino de gramática pela manipulação da palavra no ensino da norma culta da língua. Escrito por um professor da área, a presença experimental do compromisso docente é transparente. Embora a argumentação seja competente e facilitadora da compreensão, o autor não abre mão do direito de expor os problemas que só a pesquisa exigente pode sugerir.


Particular interesse desperta o sétimo capítulo, em que o autor se dedica a dirimir as dúvidas que as concepções “progressista” e “conservadora” podem provocar na tentativa de, ao recusarem uma metodologia do ensino da língua centrada no aluno, impor os mesmos propósitos sectários de “conseqüências irreparáveis” para as possibilidades emancipatórias da sociedade. No dizer do professor Odenildo Sena, “se o culto exclusivo à norma culta oculta a sua inculta origem, a defesa intransigente da linguagem coloquial acaba impedindo o acesso a uma variante trabalhada que possibilita uma abertura ao verdadeiro mundo das idéias; se a devoção ao dialeto de prestígio mostra uma visão unilateral da língua, na medida em que a dissocia do seu componente social, o culto à variante inculta oculta ingenuamente a possibilidade de dominar um instrumento através do qual se pode saltar da circularidade alienante para uma visão mais ampla do mundo e das coisas que dele fazem parte; se o apego à norma padrão subestima a sabedoria e a criatividade próprias dos usuários da variante popular, que dela se valem para solucionar seus pequenos e grandes problemas, a devoção exacerbada a esta despreza a racionalidade, a elegância, a concisão e a clareza na arrumação das idéias; enfim, se o desejo de domínio exclusivo da variante culta transfere todas as potencialidades da língua para um estreito corredor de mesmices, a opção exclusiva pela variante popular, no caminho da inocência útil, não cogita da apropriação de um instrumento que dá direito à palavra.” Como se pode ver, não há concessão na identificação dessas concepções como vertentes de poder que comunicam propósitos diferentes com o mesmo caráter de alienação; nem instruem, nem transformam e sequer instrumentalizam o usuário da língua para o acesso à intercomunicação social.


As camadas que só têm a linguagem coloquial como código para decifrar a sociedade ficam, mais uma vez, presas ao sentido e ao significado fetichizado do poder da linguagem de um grupo social hegemônico. Os professores de língua portuguesa, usuários especiais da língua, não podem mais ocultar-se sob o emaranhado das “regras da gramatiquice” como desculpa pela ausência de compromisso com uma prática pedagógica crítica e inovadora. Não depois da leitura desse livro.

 


A engenharia do texto

Sobre o livro A engenharia do texto, assim escreveu Carlos Eduardo de Souza Gonçalves, professor da Universidade Federal do Amazonas e atual vice-reitor da Universidade do Estado do Amazonas:


Existe a crença generalizada de que escrever um texto é tarefa para aqueles que conhecem as regras de gramática e de ortografia dos livros oficiais e são capazes de empregar um bom número de palavras raras e difíceis. Infelizmente essa maneira de pensar não é exclusiva de leigos, mas é compartilhada por professores de português das escolas de ensino fundamental e médio. Tal entendimento é, sem dúvida nenhuma, a principal causa do fracasso no propósito de ensinar a língua padrão aos alunos daqueles níveis escolares. O péssimo resultado disso é divulgado por todos os meios disponíveis. As “barbaridades” produzidas por alunos em provas, em vestibulares e outros tipos de concurso são, hoje, um prato cheio explorado pela mídia. O trágico de tudo isso é que esse quadro tende a permanecer por algum tempo, porque as escolas convencionais e os cursinhos preparatórios insistem em tratar o ensino da língua vernácula como treinamento para provas escolares e provas de concurso.


Esse tipo de treinamento tem um defeito intrínseco que é o de considerar o texto mera formalidade, válida por sua aparência externa. O texto, oral ou escrito, é o elemento chave da comunicação. O falante tem pleno conhecimento da comunicabilidade textual, sabendo que palavras soltas e frases desconexas não fazem um texto. De fato, o texto, em sua função comunicativa, está além das normas que caracterizam o uso padrão da língua. Ele não é apenas uma montagem estéril de palavras ortograficamente corretas que guardam entre si relações sintáticas de concordância, de regência e de colocação. O texto resulta de perfeita união entre o pensamento e a linguagem, constituindo-se em um conjunto indivisível. Trata-se de “um contínuo comunicativo contextual caracterizado pelos fatores de textualidade: contextualização, coesão, coerência, intencionalidade, informatividade, aceitabilidade, situacionalidade e intertextualidade”. (FÁVERO, Coesão e Coerência Textuais)


Odenildo Sena nos mostra isso com perfeição, produto de anos a fio de vivência escolar na lida de ensinar a trabalhar o texto. A engenharia do texto é um roteiro seguro para quem quer trilhar o árduo caminho da comunicação escrita. O livro tem densidade teórica e qualidade didática indiscutível. Já na apresentação o Odenildo adverte: “escrever bem não é uma tarefa fácil e prazerosa”. Essa compreensão descarta, desde o início, a falsa idéia de que é possível fornecer ao aluno algumas “dicas” com as quais seria possível transformar um texto ruim em algo aparentemente bom.


Esse é um excelente ponto de partida: aprender a escrever é, antes de tudo, aprender a pensar. É aprender a organizar o pensamento. É desenvolver idéias, primeiramente definido-as com clareza e, em seguida, detalhando-as de forma que seja respeitado o nexo que as une. Escrever não é somente a manifestação de um dom natural, é, acima de tudo, a aprendizagem de um trabalho de artífice, de uma arte, arduamente conquistada.


Vista sob essa ótica, as quatro partes do livro possuem uma função que o distingue dos costumeiros treinamentos meramente formais. É bom salientar que os momentos em que o autor fragmenta o parágrafo em suas partes não significa que ele adotou o corriqueiro conceito de fundo e forma. É, na realidade, um trabalho de anatomia em que as partes dissecadas precisam ser trabalhadas e ligadas por sua função e significado, tendo em vista o objetivo de quem escreve o texto. Portanto, a maneira de expor o pensamento na construção do parágrafo tem que se ajustar ao que se quer dizer.


A partir dessas idéias básicas, o livro se desenvolve dentro de excelente concepção didática que deixa transparecer a experiência do Odenildo em lidar com esse tipo de trabalho na sala de aula. Sua vivência, adquirida ainda no ensino fundamental e médio, se consolidou nas duas últimas décadas no ensino superior, através de persistente labor experimental no ensino de graduação. Para corroborar essa assertiva, é suficiente lembrar que o livro está cheio de exemplos extraídos de trabalhos de alunos, desenvolvidos em todos esses anos.


Na ordem no que ficou dito no parágrafo anterior, tem a obra do Odenildo outro mérito que a torna agradável e moderna. A partir de exemplos extraídos de jornais e revistas atuais, possibilita ao aluno, principalmente, do curso superior acesso à linguagem viva, palpitante e de alto grau de pertinência.

 

4 Responses to “Livros”

  1. 1
    Cesar Melo Says:

    Caro OSena,
    Como poderiamos ter acesso aos textos citados? Alguma Livraria da cidade tem os seus livros ?
    Grande abraço
    Cesar

  2. 2
    Sofiane Labidi Says:

    Carissimo Amigo Odenildo,
    Parabéns por este espaço muito rico e agradável para leitura.
    Sofiane Labdi.

  3. 3
    adelia maria leal da cruz Says:

    Estimado Odenildo,
    Desde que morei em Boa Vista, 2004 e 2005, que adoto o seu livro com os meus alunos de ensino superior. hoje estou em teresina -PI e continuo usando seu jeito simples e dinâmico de falar sobre a construção do parágrafo. Preciso saber se tem como fazer o pedido do livro, pois acho o cúmulo fazer cópia de um material tão rico como esse que poderia estar sendo reeditado para nosso uso.
    Abraços, Adélia Leal

  4. 4
    adelia maria leal da cruz Says:

    Meu grande mestre Odenildo,
    Não falei sobre o outro livro, Palavra, poder e ensino da língua. Também adotei com meus alunos para discussão e reflexão sobre o ensino de lingua portuguesa. Superou o que planejei, voc~e é muito bom no que faz.
    Abraços,
    Adélia Leal

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