Odenildo Sena

22 Jun

A cachaça do Acácio

Nunca antes na sua história de clássico bebedor imaginou pagar tão caro por uma única dose da aveludada branquinha. Aliás, diga-se de passagem, sua interlocução com esse líquido milenar, derivado da cana-de-açúcar, é sempre marcada por um ritual digno da mais fina diplomacia daqueles que passaram pelos exigentes bancos do Instituto Rio Branco. Enquanto os outros, pobres mortais bebedores de cerveja, enchem seus copos e partem de imediato para as vias de fato, ele se impõe um cerimonial quase litúrgico. Primeiro, suspende a pequena taça um pouco acima de sua testa e, qual sacerdote glorificando o vinho, examina com atenção o produto. Só então, após dois suaves movimentos de cabeça aprovando a pureza e autenticidade do líquido, repousa-a contritamente sobre a mesa. Em seguida e sem trair a concentração, unge as bordas da taça com pingos de limão e, depois, para completar a liturgia, distribui com parcimônia algumas pitadas de sal sobre o limão. Vencidas essas necessárias etapas, entorna o sagrado líquido com elegância de causar inveja ao mais fleumático dos lordes ingleses. A paixão pela pinga o transformou no dedicado colecionador e estudioso que é capaz de adquirir a revista Playboy, arrancar as páginas que trazem o ranking das melhores cachaças e dispensar friamente o restante do conteúdo que tanto encanta mancebos dos quatro cantos do mundo. Mas, deixemos de lado esses detalhes e voltemos ao assunto inicial do texto. Dia desses, hospedado em um hotel onde participava de um grande evento, reuniu-se com os amigos para o justo relax, depois de um cansativo dia de trabalho e discussões. Dispensou, como sempre, o consumo da suada cerveja e deu início aos trabalhos, seguindo religiosamente todos os passos acima delineados e assumindo o que considera ser uma questão de honra e respeito à bebida dos deuses. Posto isto, despediu-se e bateu em solene retirada, não sem antes anotar em um guardanapo de papel o número de seu apartamento e o valor de sete reais, cobertura daquele inegociável e efêmero momento de prazer. Lá pelo avançado da hora, naquele estágio em que o garçom traz a conta sem que ninguém a tenha pedido, um espírito perverso guiado pela peraltice propõe que os quase seiscentos reais, a serem divididos entre os sete convivas remanescentes, tenham como destino o apartamento de Acácio. Trocados os olhares de cumplicidade, a proposta foi tácita e imediatamente aprovada. Não deu outra. No dia seguinte, ao solicitar ao recepcionista do hotel que passasse a régua em sua conta, tremeu dos pés à cabeça ao descobrir que havia entornado uma dose de cachaça que lhe custara R$ 636,00. Pura maldade.

16 Jun

O plebiscito ganha força

Nessas condições, eu não faria diferente do tucano José Serra. Seguiria o exemplo do Diabo. Fugiria em desabalada carreira do plebiscito como o tinhoso foge da cruz. Digo isso – e quero deixar claro que se trata de minha particularíssima opinião, que não influi nem contribui – porque andei desencavando em uma edição do início do ano de uma revista semanal alguns indicadores que não servem de alento ao ex-prefeito e ex-governador de São Paulo. Mas antes de transitar por esses números, quero, também, esclarecer que meus conhecimentos técnicos sobre economia se resumem ao dever e haver da contabilidade doméstica. O que tenho aprendido a mais, justiça seja feita, tem sido pela leitura dos didáticos artigos do professor Delfim Netto, figura insuspeita até pela sua trajetória política. Nada disso, porém, me impede de enxergar algumas obviedades que dão a César o que é de César. Não desconheço, por exemplo, que o Plano Real foi uma jogada de mestre panfletariamente desdenhada pelo Partido dos Trabalhadores, que fazia exatamente o que fazem nos últimos anos os demotucanos. Se os primeiros foram obtusos em não reconhecer, naquele momento, o grande mérito do controle da inflação, os segundos obtusos foram por não reconhecerem a argúcia de Lula para escrever uma nova página da história política e econômica do país, fazendo valer a crença, sob medida para esse caso, de que quem cria nem sempre tem competência para tirar proveito de sua criação. É aí que o plebiscito se torna inevitável. A turma chiou recentemente quando a taxa de juro deu uma guinada para 10%, esquecendo-se de que no governo FHC chegou a 45,67%. Isso, sim, absurdo. A taxa mais alta do chamado superávit primário no governo anterior foi de 3,47% enquanto no governo atual foi de 3,93%, tendo caído a 2,09% no ano da crise. No caso do crescimento do PIB, a média nos anos anteriores atingiu 3,53% e de 2003 a 2008 4,38%, sem falar nos 9% anunciados semana passada e, mais uma vez, obtusamente desqualificados pelos demotucanos. No que tange ao emprego, a diferença salta aos olhos. Leio que na era do sociólogo foram criadas 797 mil vagas formais. Já na quase finda era do metalúrgico, nove milhões, bem perto, portanto, das 10 milhões prometidas na campanha. Sem falar no campo social, onde ocorreram avanços incontestáveis, nessas alturas penso que o grande desafio de José Serra está em convencer o eleitor a largar o já feito pelo duvidoso. Coisa difícil de ser aceita por quem tirou a barriga da miséria.

08 Jun

Paranoia

Pode até ser um passageiro estado de espírito. Mas que tem me incomodado tem. Em verdade, o fato de não ter provocado inquietação alguma em outras pessoas é que tem me incomodado mais ainda. Andei reverberando por aí minhas preocupações, mas não consegui motivar criatura alguma a acolher meu mau presságio. Utilizei o meu sagrado espaço democrático no Twitter, na tentativa de mobilizar alguma alma, e nada. Até fiquei um pouco magoado com o marqueteiro do Obama, que espalhou aos quatro cantos que esse mecanismo da internet é bater e ver, tanto que o Barack teve sua eleição garantida pelas chamadas redes sociais. Mas aí não dá. Eu estou querendo demais. Pensando bem, devo ter superestimado o meu minguado número de seguidores, que está a anos luz de bater o astronômico recorde da apresentadora americana de televisão Oprah, cujas mensagens de 140 caracteres podem causar alegria ou comoção em milhares de seres viventes. Conversei pessoalmente com algumas pessoas sabidamente ansiosas e sofredoras por antecipação. Justiça seja feita, me ouviram com interesse no tema, mas não passou daí. Só aumentou a angústia de saber que eu estava na condição de um solitário angustiado. Ainda assim, meus botões me dizem que a coisa é séria. Imaginemos o seguinte: todas as mensagens, mesmo curtíssimas como exige a ferramenta, postadas no Twitter deixam de pertencer a quem as postou e passam a ter um único dono. Centenas de milhões e milhões de mensagens reveladoras, de forma ostensiva ou velada, do que pensamos, do que sentimos, do que gostamos ou não, de quem gostamos ou não, de quem admiramos ou odiamos, de nossas idiossincrasias, de nossas críticas, de nossas línguas ferinas e venenosas, mesmo após o incêndio no acervo do Butantã, de nossa formação política e ideológica, do nosso deboche, de nossas ironias, de nosso dia preferido para tomar a sagrada gelada, da tara do Jefferson Coronel por churrasco no sítio, de nossa paixão ou ódio pelo Vasco, Corinthias, Flamengo ou pela gloriosa seleção de estrangeiros do Dunga. Como diria um comunista de boa cepa, Deus meu, é um valioso banco de dados e de incalculável valor! Num eventual retorno à Guerra Fria estaríamos, como diria minha mãe, fritos na banha do periquito, todos nas garras do inimigo, que seria dono de nossas entranhas. Dele escapariam apenas os não tuiteiros. Pois bem. Saibam, pela última vez, que a biblioteca do Congresso Americano negociou com o Google a compra de todo o acervo de mensagens armazenadas na time line do Twitter. Impressão ou estou paranoico mesmo?

01 Jun

A força da Conferência

Alguém que estivesse há, pelo menos, dez anos fora do país e olhasse de longe não entenderia. Afinal, que multidão de mais de quatro mil pessoas seria aquela? Não, não era um ponto de entrega de rancho aos mais desassistidos, como na época dos coronéis da política. Não era nenhum show gratuito de uma dupla de cantores de música sertaneja. Como não era, também, nenhuma dessas barulhentas convenções partidárias de lançamento de candidaturas. Nada disso nem outra coisa parecida. O inusitado é que aquela multidão estava ali para discutir o estado da arte da Ciência, da Tecnologia e da Inovação no Brasil. O evento? A 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, de quarta a sexta-feira da semana passada em Brasília. Consequência, em cadeia, das conferências estaduais e regionais, o que faz do mecanismo uma prática política democrática e abrangente, essa edição, a maior de todas, teve como mérito a convergência para o reconhecimento de que o país tem muito a comemorar diante dos visíveis avanços dos últimos anos, mas precisa estar atento para não se permitir qualquer risco de descontinuidade nos investimentos. Precisa, também, levar em conta que os nossos maiores concorrentes do BRIC, China e Índia, caminham a passos largos e que nós precisamos ser mais ousados que eles. Para enfrentar esse desafio – e esse é um dado novo no cenário –, os estados, com suas fundações de amparo à pesquisa, nunca tiveram uma presença tão significativa na soma de forças com as iniciativas do governo federal, o que motivou, inclusive, o reconhecimento público da Fapeam, pelo presidente da Academia Brasileira de Ciência, como a quarta instituição do gênero no país. Só pra ficar num único dado, que eu chamo de acachapante e muito nos deve orgulhar a todos, em 2002 o Amazonas investiu 0,3 milhão em Pesquisa & Desenvolvimento e, num crescimento contínuo a partir de 2003, chegou a 51,1 milhões só em 2008. Dos demais estados da região Norte, o que mais se aproximou dessa marca foi o vizinho Pará, com 27,1 milhões no mesmo ano. É certo que nem tudo são flores. É preciso estreitar parceira entre a academia e o setor produtivo; é preciso engrossar o contingente de pesquisadores em áreas estratégicas; é preciso ação pontual e ambiciosa para consolidar a Amazônia como nossa; é preciso, com toda a coragem e patriotismo, tornar os investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação ações de Estado autônomas e continuadas. Enfim, há muito caminho a percorrer, mas, convenhamos, a estrada em direção ao futuro já está pavimentada.

26 Mai

Um texto no meio do caminho

Quem compra o doloroso e exaustivo desafio de escrever sabe disso. A relação entre o sujeito e o texto nem sempre é amistosa. Muito pelo contrário. O leitor que não se mete nessa encrenca embarca mesmo na ilusão de que escrever é um ato rotineiro como qualquer outro e não implica maiores sacrifícios. Engano. Ledo engano. Não é bem assim. É certo que, dependendo de razões que a própria razão desconhece, há situações passivas em que o texto em construção fica sob absoluto controle. Como se a gente dissesse: Olhe aqui, quem manda em você sou eu! Você vai fazer o que eu quero e vai pro rumo que eu escolher. Aí é bom demais. O ruim mesmo é quando se estabelece o conflito decorrente da desobediência e da insubordinação. O texto não dá a mínima pra você. Faz, como se dizia antigamente, ouvido de mercador. Você tenta de todas as formas dar um corretivo no danado, mas ele não se entrega e assume mesmo ares de pura arrogância. Vez ou outra eu tenho convivido com esse constrangimento aqui em casa. O computador é testemunha desses confrontos. Pra quem está duvidando do que digo, tenho provas dessa situação desconcertante e, até, humilhante pra mim. Acabo de acessar uma pasta com vários pedaços de textos rebeldes que fincaram pé pra não serem concluídos e ficaram no meio do caminho. E o pior é que eu sabia o que queria de cada um deles! Há, por exemplo, um pedaço em que eu falava sobre a escolarização da escrita. Pretendia mostrar o quanto a escola pode atrapalhar a aprendizagem da escrita quando artificializa o processo didático. Há outro, até bastante adiantado, onde eu discorria, ou melhor, discorreria acerca do fenômeno de que não são apenas as palavras que falam, mas o silêncio, também, que é sempre carregado de sentido. Pena, o texto ficou pela metade. Há outro, ainda, onde eu pretendia confessar que houve um tempo em que, por questões ideológicas, eu me recusava ler Roberto Campos ou Delfim Netto. Como eu perdi com isso. Não teria sido um bom texto? Vejo outro que não passou da primeira linha, mas dá pistas de que falaria sobre meu velho hábito de marcar e fazer anotações nas laterais das páginas dos livros que leio. Acreditem! Esse tinha até título! “Livro marcado pelo leitor”. Que droga! O que mais revolta é saber que teriam dado ótimos textos. Paciência. Um dia é do sujeito, outro, do texto.

19 Mai

O outro lado da moeda

Dias atrás, três de maio, comemorou-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Confesso nutrir certo fascínio pelo tema, embora tenha buscado o diploma em outra área que, apesar de bem próxima, não se confunde com o jornalismo. Bem a propósito, aquela defesa que o eminente Ministro Gilmar Mendes fez da não exigência do diploma, comparando o jornalista com o cozinheiro, me soou como das mais ridículas e intempestivas. Mas deixa pra lá. Voltemos ao tema. Talvez meu fascínio se deva ao fato de ter por objeto de estudo o insumo básico de que se vale o jornalista para exercer sua difícil profissão: a língua, com todas as ambiguidades que possam aqui ser suscitadas. Penso até que isso é bom. Afinal, não ser jornalista me faz ter paixão pelo jornalismo com a prerrogativa de enxergá-lo na perspectiva do consumidor desse produto, livre, portanto, da acusação de estar “traindo a classe”. E aproveito para deixar bem claro que considero a liberdade de imprensa um bem inegociável. Mas acho que há gente tirando proveito pouco nobre dessa liberdade. Foi por esse viés que andei relendo algumas coisas sobre a dita comemoração e me dou aqui o direito ao livre pensar. Da lavra do Ministro Carlos Ayres, vice-presidente do STF, anoto a afirmação de que “entre a imprensa e a sociedade civil há uma linha direta”. Deveria haver, digo eu. Essa linha, em muitos casos, tem sido bastante enviesada, ao ponto da presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) ter defendido outro dia que as empresas afiliadas deveriam assumir o papel da oposição no Brasil, uma vez que os partidos, a quem caberia esse papel, estão “fragilizados”. Ora, esse impropério põe em risco aquilo que o jornalista Carl Bernstein define como “quadro crítico da atuação da imprensa no mundo”, que está a exigir um enorme esforço dos jornalistas para “manter a credibilidade da imprensa em todas as plataformas em que as notícias são veiculadas”. Gostei muito da fala do jornalista americano, sobretudo por enxergar – fato pouco comum no seu meio – verdades solenemente ignoradas por colegas de profissão que estão a corroer essa credibilidade, o que tem sérios impactos negativos para a democracia. Afirmações como “preguiçosa apuração dos fatos”, “a imprensa existe para o bem público e não só para fazer dinheiro ou entreter”, “a melhor versão possível da verdade que se possa ter”, a necessidade de “uma nova cultura de responsabilidade na imprensa (…), do contrário não seremos levados a sério” bem que poderiam incomodar aqueles que defendem a liberdade de imprensa, mas fazem questão de esconder o outro lado da moeda: o sagrado direito à informação sem adjetivos e outros expedientes de manipulação.

11 Mai

Ser ou não ser: eis o PT

Mais uma vez o Partido dos Trabalhadores no Amazonas se viu às voltas com uma confusão dos infernos. Não sabia se ia ou se ficava. Não sabia se ficava aqui ou se ficava acolá. Não sabia se parava ou continuava. Não sabia se era situação ou oposição. Não sabia se estaria em palanque único ou se dividiria entre dois palanques. A velha e cansada dúvida shakespeariana do ser ou não ser voltou a causar dissonância e a atormentar companheiras e companheiros. Fico pensando mesmo que nenhuma agremiação política representa com tamanha fidelidade o exato sentido do termo par-ti-do. Alguns queriam candidatura própria e, preferencialmente, puro-sangue. Outros entendiam ser justo acompanhar o ungido pelo presidente Lula, senador Alfredo Nascimento. Outros, ainda, defendiam apoio à reeleição do governador Omar Aziz. E ainda havia aqueles para quem aqui ou acolá, desde que fosse de fato aqui ou acolá, valeria a pena, por acharem que a alma não é pequena. Enfim, o partido ficou partido em diversos pedaços. Protagonista, mas distante das frenéticas articulações e dos interesses que permeiam o cenário, acompanhei em silêncio e de longe o desfecho do imbróglio. Aproveito pra confessar que sou um petista que nunca viveu a burocracia do partido, por absoluta inaptidão e pouca paciência para a coisa, embora considere necessário e respeite quem a isso se dedica. Mas, como diria minha velha mãe, venha cá e fique lá mesmo, a decisão de pular fora e, no dia seguinte, estar confortavelmente agasalhado em outro barco me causou bastante incômodo. Sob o ponto de vista político, alguns diriam que tudo se resolveu como manda a regra. Houve, afinal, até uma votação. Sob outros aspectos que vão além do político, entretanto, há perguntas que ainda ressoam sem resposta. Se o partido passou sete anos, três meses e dezoito dias ocupando cargos no governo, não se há de crer que ele tenha se engajado em um projeto político-social no qual acreditava? O que pensar se, no dia seguinte, salta para outro barco? O projeto deixou de ser viável? Foram 7 anos, 3 meses e 18 dias de equívoco? Neste caso, o que dizer da competência de quem foi tão longe no equívoco? Se o projeto foi vitorioso e teve um enorme impacto social, o que dizer da coerência de quem o abandona já tão perto da praia? E a história, o empenho e dignidade de quem foi protagonista direto dessa história? E o compromisso com quem acreditou nessa história? É simples, é assim, é só virar a casaca e pular pro outro barco?

04 Mai

O mundo fraturado do cinema

Gosto de cinema, mas não gosto de ir ao cinema. Acho até que já falei sobre isso ou coisa parecida. Não, nem pensar que assim tenha sido desde sempre. Minha infância e juventude foram vividas dentro de um cinema. E sempre que tenho oportunidade falo ou escrevo a respeito deste sempre lembrado período da vida em que a magia do cinema me fazia romper qualquer barreira entre o sonho e a vida que eu menino vivia no meu bairro de São Raimundo. Não, também, que minha paixão pelo cinema tenha parado no tempo. Criei meu próprio Cinema Paradiso em casa. Com tela que mata minha saudade do velho cine Ideal e um razoável acervo em DVD que venho construindo há anos, sobretudo na condição de um incorrigível caçador de promoções. O que não gosto mais, repito, é de ir ao cinema. E penso que tenho minhas razões. Pode haver situação mais incômoda, com o início da projeção, do que a desconcertante orquestra promovida pelo barulho das embalagens de papel e pelo seu vizinho ao lado, triturando impiedosamente o milho de pipoca na boca? Pode haver coisa mais inconveniente do que a alternância dos diferentes toques de celulares a bom perturbar o seu juízo? Mais que isso, que obrigação você tem de aturar a breguice do infeliz que resolve atender o celular e discutir, em alto e bom tom, os desencontros de sua vida amorosa? Isso sem contar com aqueles outros com pendor para cineastas da pirataria, que comprometem sua atenção com o visor dos celulares ou das câmeras. Nada contra a paixão desenfreada e os beijos ‘calientes’ à moda saca-rolha, desde que aconteçam, convenhamos, em outro lugar e não causem constrangimento a quem investiu num ingresso bastante caro para tirar proveito de outras cenas. Pergunto eu o que pode haver de mais explícita e descarada invasão territorial do que o tosco esparramado na poltrona, logo atrás, não satisfeito com a parte que lhe cabe naquele latifúndio, esticar as pernas sobre a poltrona da frente e achar absolutamente natural você ter o dever de suportar o odor das suas botinas vencidas? Não, assim não dá! Mesmo não sendo herdeiro de nenhuma linhagem nobre na minha árvore genealógica, decididamente me recurso a compactuar com o que, para um velho amigo, é a maior evidência da estupidez, da ignorância, de um mundo inculto e fraturado. No meu tempo, o escurinho do cinema era um lugar sagrado.

27 Abr

Primeiro desemprego

As aulas de radiotelegrafia do seu Édson pareciam abrir boas perspectivas para o primeiro emprego. Preocupada, minha mãe subtraiu de suas parcas economias alguns bons trocados e me deu de presente um belo manipulador de metal brilhoso. Modernamente falando, era usado para “digitar” o código Morse. Conectado por um fio a uma geringonça semelhante a um pequeno rádio, provocava os apitos curtos e longos que escapavam por entre as brechas das paredes de madeira e me faziam arrumar adversários em casa e na vizinhança. Certo dia, estava eu num cantinho da sala transmitindo minhas mensagens de SOS (…///…) para um interlocutor imaginário, quando minha mãe, orgulhosa, disse que havia conseguido pra mim um estágio com um telegrafista que trabalhava no “O Jornal e Diário da Tarde”. As notícias do Brasil e do mundo abasteciam os jornais pelas ondas do telégrafo. Lembro-me de haver no mesmo piso da redação, na Eduardo Ribeiro, uma pequena sala com um aparelho de rádioreceptor, sobre uma velha mesa, que sintonizávamos nas agências de notícias, sempre com o auxílio de um enorme fone de ouvido. Havia a United Press International (UPI), a Associated Press International (Assapress), a Agência Jornal do Brasil (AJB), a Meridional. Ocupava minhas tardes inteiras, diante da velha e barulhenta Olivetti, familiarizando-me com o mundo dos acontecimentos, com a prerrogativa de dividir com o Roberto, meu preceptor e telegrafista oficial, o privilégio de sermos sempre os primeiros a saber o que o mundo nos reservava, diariamente, de acontecimentos alegres ou trágicos. Neste último caso, sobretudo pela Guerra do Vietnã, que vivia momentos sangrentos. Vítima da propaganda americana, sofria quando soldados morriam nas emboscadas preparadas nas selvas pelos vietnamitas e vibrava quando os “inimigos” eram pegos de surpresa no delta do rio Mekong, que eu não conhecia, claro, mas me soava tão familiar quanto o igarapé de São Raimundo, onde travávamos memoráveis batalhas no tempo de eu menino. Mas o sonho da telegrafia durou pouco. Certo dia, chego ao jornal e me deparo com um alvoroço na redação. Jornalistas e editores prestavam reverência a uma estranha coisa de altura mediana, no canto da parede, que, entre tremidos e barulho semelhante a uma máquina de escrever, milagrosamente, sem que ninguém precisasse interferir, executava com toda eficiência, em incansáveis dias e noites, o mesmo trabalho que, artesanalmente, ocupava a mim e ao Roberto todas as tardes. Aproximei-me dela como quem se aproxima para se render ao inimigo e vi que estava diante de um milagre da inovação tecnológica chamado teletipo. Perdera o emprego antes de ser contratado.

20 Abr

O partido da mídia

Não me iludo com a linguagem e tenho fortes razões para isso. A formação acadêmica pela qual optei, descortinando, ao longo de vários anos de estudos pós-graduados, os meandros e as facetas do discurso, me ensinou que, de todos os territórios que assentam as relações do ser humano sobre a face da terra, o mais elementar, fascinante e infinitamente complexo é o da linguagem. É no âmbito desse fenômeno que o ser humano, desde a mais tenra idade e nos duros embates das contradições sociais, molda a compreensão do mundo que está em seu redor e as crenças e convicções das quais se valerá para ocupar seu lugar ao sol. Pra encurtar caminho e não me enveredar pelo tecnicismo, correndo o risco de aporrinhar o leitor, quero com isso dizer que nada na linguagem é desprovido de interesse. Tudo o que se diz, a quem se diz e como se diz é sempre carregado de interesses, velados ou ostensivos. A neutralidade, dessa forma, é sonho vão, fruto da nossa ingenuidade. Dito isso, não fica tão difícil entender o inalcançável desafio de se fazer jornalismo centrado nos fatos. Mas também não fica difícil entender que, quanto mais se distanciar dessa utopia, mais o pêndulo estará se inclinando para a manipulação e prevalência de interesses do profissional e, por óbvia tabela, da sociedade (anônima, diga-se de passagem). Ora, se o ideal, ainda que puro ideal, da matéria jornalística é aquele que partilha os fatos e deixa a cargo do cidadão as inferências e ilações, o desafio se torna maior ainda. Vê-se, portanto, que a rigor a mídia tem, ou deveria ter, um compromisso social e ético situado aquém e além da vontade e do desejo de quem a faz. Neste sentido, não cabe, ou não deveria caber, situá-la no plano maniqueísta de situação ou oposição, salvo no caso de seus editoriais e textos de responsabilidade explícita. Acontece que a utopia possível desse desejável tipo de jornalismo acaba de ser enterrada pela senhora Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais, ao reconhecer que, como os grupos de oposição ao governo Lula estão profundamente fragilizados, cabe aos meios de comunicação assumir, de fato, “a posição oposicionista deste país”, o que, convenhamos, num ato falho, deixa escapar um tom perigosamente golpista de que, se os políticos não conseguem fazer oposição, façamos nós, que temos esse poderoso instrumento em mãos. Risível, não fosse tão trágico para a democracia.

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