Odenildo Sena

28 Dez

O balanço da ciência

Passei a conviver com a crença de que, em definitivo, aprendemos a lição. Inexiste povo ao longo da história que tenha conquistado poder e soberania sem que isso tenha passado pelo peso de seu capital intelectual e pela força de seu espírito inovador. Modernamente falando, que outra razão básica explicaria a indiscutível hegemonia americana no mundo? Por outro lado, mas sem mudar o foco, o que explicaria a preocupação dos americanos e a previsão dos analistas de que todo esse poder começa a perder força, senão pelo ímpeto e determinação de outro país que, se até há pouco tempo se contentava com sua grandeza física e populacional, hoje agiganta seus investimentos em capital intelectual, desenvolvimento científico e inovação tecnológica? Refiro-me à China, que, valendo-se dos mesmos ingredientes acima referidos, passou de mera produtora de quinquilharia a exportadora de avançadas tecnologias, para ficar num só exemplo. Por isso mesmo, acredito termos aprendido a dura lição. O balanço que se faz dos investimentos em ciência e inovação tecnológica no Brasil ao longo dos últimos sete anos, embora não represente, ainda, a revolução operada pelos chineses, já nos coloca em ritmo para sermos, num tempo não muito distante, uma grande potência. Essa previsão não vem sendo feita por nós, brasileiros, mas o lastro para isso é perceptível. Ao lado dos volumosos investimentos do Governo Federal, os estados há muito se deixaram contaminar por essa necessidade. O Amazonas, por exemplo, onde até 2003 não se contava com a cultura do investimento em Ciência e Tecnologia, hoje desponta como o quarto estado que, proporcionalmente, mais aplica recursos na área, atrás apenas de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. As instituições de ensino e pesquisa aqui sediadas testemunham isso. Apenas no item formação de recursos humanos altamente qualificados, foram concedidas no período 974 bolsas para formação de mestres, dos quais 691 já concluíram seus cursos. Em nível de doutorado, dos 360 bolsistas, 92 já se titularam. Se, até 2002, o Amazonas contava com apenas 433 doutores, em 2008 já alcançava 1.068, segundo dados do CNPq. Para 2010, uma feliz e ousada parceria com o Governo Federal vai permitir aplicar 35 milhões na formação de mais 170 pesquisadores doutores em áreas estratégicas, principalmente nas engenharias, nossas maiores carências. Por suas características e pelo que representa para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado, não tenho nenhum receio de afirmar que a Fapeam é a mais extraordinária obra do governador Eduardo Braga.

21 Dez

O palavrão e a hipocrisia

A manchete do jornal dizia: “Palavrão” revolta tucanos. Assim mesmo, entre aspas, a indicar o termo como fora de sua acepção, digamos assim, mais tradicional. Apressei-me em ver de que se tratava. Dei-me conta, então, de que, durante a assinatura de contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão, Lula, num dado momento de seu discurso, teria dito o seguinte: “Eu quero saber se o povo está na merda. Eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra”. Achei esquisita a construção, não o palavrão, que aqui já deixo sem as aspas e me explico mais adiante. Mas vamos por parte. Depois de garimpar um pouco nesse maravilhoso mundo da internet, localizei a afirmação do presidente cercada de uma contextualização maior, que aqui reproduzo: “Eu não quero saber se o João Castelo é do PSDB. Se o outro é do PFL. Eu não quero saber se é do PT. Eu quero é (o grifo é meu) saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra; esse é o dado concreto”. Na perspectiva do que está posto, tomo a liberdade de fazer três considerações: 1ª) Palavras ou frases não têm um sentido pré-determinado. Retirá-las, portanto, do cenário discursivo em que se deu a efetiva manifestação linguística implica risco certo de seu comprometimento. A omissão, mesmo que seja de um simples verbo, como é o caso do grifo acima, corrompe ainda mais o enunciado original. Uma coisa é o que se depreende do primeiro texto jornalístico; outra, é a que reproduz literalmente a fala do presidente; 2ª) equivoca-se o jornal quando grafa palavrão entre aspas, afinal, basta uma consulta ao dicionário para se comprovar que o termo foi há muito incorporado ao vocabulário de nossa língua. Caberia, sim, um jogo de aspas, mas em outra palavra. Neste caso, a manchete deveria ficar assim: Palavrão “revolta” tucanos, o que sinalizaria o altíssimo teor de falso moralismo e hipocrisia de certa casta que costuma posar de bacana e jogar pra debaixo do tapete a crueldade da herança secular de pobreza com que ainda se convive em nosso país; 3ª) enxergar um falso palavrão no discurso de Lula, pelo que se vê, causa mais revolta do que indignar-se com a miséria e a fome impiedosas que ainda campeiam pelo país afora, a despeito do indiscutível avanço de ações do governo na área social. Parafraseando o articulista Nelson Caroni Filho, eu diria que o que mais aflige essa casta não é o sentido metafórico da fala do presidente, mas o que aparece no improviso de seu discurso como dado concreto.

14 Dez

A poltrona sumiu

Já tive oportunidade de presenciar as mais hilariantes situações promovidas pelas nossas competentes empresas aéreas, mas por essa, confesso, não esperava. Já aconteceu, acreditem, da aeronave pousar no aeroporto de Brasília, estacionar na ponte e, na hora H, a porta dianteira emperrar. Não houve jeito que desse jeito. Depois daquele tradicional frenesi para desatar os cintos e ocuparem o corredor do avião, os passageiros, já cansados de esperar, tiveram que voltar aos seus assentos. O chaveiro mais próximo, penso eu, foi acionado e, depois de quase quarenta minutos, foi-nos dada a liberdade. Bem poderíamos ter processado a companhia por cárcere privado. Outra vez, aguardava no mesmo e confortável aeroporto a hora do embarque para Manaus. A voz estridente e sempre aflita e desesperada do funcionário avisa, sem nenhum pudor, que a autorização para o embarque estava dependendo apenas da chegada da tripulação. Bem humorada, uma senhora que trabalhava com aquela maquininha detectora de metais não contou dúvida e soltou: “apertem os cintos que o piloto sumiu!” Outra situação foi bastante cômica. O avião estava em uma pista lateral e os passageiros fomos levados de ônibus, o detestável embarque remoto. Todos acomodados, fechadas as portas, nada da aeronave movimentar-se. Diante da paciência já estourada daquelas almas reclusas, o comandante pediu desculpas pela demora e anunciou que não havia, até aquele momento, um trator disponível para empurrar a aeronave até a pista de taxiamento. Fazer o quê? Mas isso não é tudo. Dia desses, juro que faltava um pedaço do avião da velha Varig que fez o trecho Brasília-Manaus. Estava sem aquela divisória que separa os passageiros da primeira fileira de poltronas da porta do velho e cansado Boeing. Os avisos de afivelar cinto tinham sido improvisados com etiquetas da Pimaco. Reclinar a poltrona? Nem pensar. O mecanismo estava enferrujado. Mas por essa última, juro que eu não esperava. Contando ninguém acredita. Havia feito o check-in pela internet e escolhido a poltrona. Já diante do balcão, para despacho da bagagem, ouço meu nome reverberando nas caixas de som, pedindo que eu procurasse um funcionário da empresa. Como eu já estava diante de um, perguntei do que se tratava. Logo veio a inusitada resposta. É que a poltrona 1-C que está em seu cartão de embarque não existe, senhor. Vamos ter que trocá-la. Então vocês queriam que eu viajasse na parte externa da aeronave? Claro que não. Vamos resolver esse problema. Não existe a 1-C, mas existe a 2-C. Durma-se com um barulho desses.

08 Dez

A vez do Twitter

Juntei minha curiosidade ao estímulo de um dos filhos, que navega na área da Tecnologia da Informação, e me tornei um tuiteiro. A princípio tímido e contido, fui me familiarizando com a ferramenta e hoje reservo alguns minutos de meus atribulados dias para ver o que dizem aqueles que sigo e arriscar alguns updates, como se diz no jargão. Sabedor de que o Twitter tem um poder danado de estimular a dependência, gerando inclusive conflitos familiares e até divórcio, tenho procurado me disciplinar como quem toma seu tranquilizantezinho apenas quando a barra está no limite. A propósito, até li num desses dias que alguns hospitais americanos já contam com uma ala exclusiva destinada à recuperação de pacientes em avançado estágio de dependência da internet e de games. Para ser franco, prefiro ser dependente de outras coisas mais interessantes, embora nada tenha contra quem se entrega a esse ócio criativo que, para muitos, aliás, transformou-se em utilíssima ferramenta de trabalho e de negócios. Em várias circunstâncias, o Twitter já demonstrou a que veio, não só pela rapidez com que permite a livre circulação de informações, sem as amarras dos mecanismos tradicionais da mídia, como também pelo seu extraordinário efeito multiplicador. Penso mesmo que o Twitter, ao lado das outras mídias ancoradas na internet, representa mais uma grande dor de cabeça a desafiar a sobrevivência da mídia impressa. E aqui devo ressaltar que o “Dez Minutos” é um caso a parte. Mas continuo a achar, por outro lado, que o erro da mídia impressa está em querer continuar concorrendo com os avançados recursos disponibilizados na internet, aí incluídas as redes sociais. Ora, esses mecanismos têm se caracterizado pelo poder de síntese, como é o caso particular do Twitter, e pelos textos claramente analíticos e opinativos, como é o caso dos sites e blogs. O factual aparece, não poucas vezes, como simples acessório. Nessa corrida, a meu ver, perde a mídia impressa tradicional, que deixa de ocupar um precioso espaço que continua sendo seu: o da primazia dos fatos, dos textos mais densos, do jornalismo investigativo e das grandes reportagens. Quanto a mim, não abro mão das ferramentas maravilhosas oferecidas na internet, mas elas não satisfazem por inteiro o meu sentimento de leitor. Pode até ser cafonice ou saudosismo de minha parte, mas considero indispensável debruçar-me sobre a leitura do jornal impresso, numa empatia que a telinha do computador jamais preencherá.

30 Nov

Pelo viés da manipulação

Não, não quero entrar no mérito da questão. Não tenho conhecimentos técnicos nem jurídicos para tomar partido e dizer se o italiano Cesare Battisti deve ou não ser extraditado. Mas tenho me alimentado com o que a mídia vem oferecendo de informações e, sobretudo, opiniões. Opiniões, porque hoje o que se vê são jornalistas e editores assumindo o papel de zelosos guardiões da sociedade e ditando lições do que é certo ou errado, do que deve ou não ser feito, do que é juridicamente aceito ou não, do que é bom ou não para nós, pobres mortais. Tudo isso num caráter de infalibilidade que dá inveja ao papa, a quem a igreja católica atribuiu tal prerrogativa, salvo engano, ainda no reinado de Pio XII. Embarco nesse tema a propósito de matéria (e não artigo assinado) publicada em número recente da Carta Capital sobre o julgamento do caso Battisti, no qual o STF entendeu que a decisão de extraditar ou não o italiano é competência exclusiva do presidente da República. A rigor, o fato estaria aí encerrado, mas é mandado pras cucuias logo na abertura do texto, quando o anônimo jornalista supõe que Lula teria lamentado a decisão do supremo. Não bastasse isso, há na sequência uma série de manobras discursivas, algumas bem rasteiras, outras, puro sofisma, outras, ainda, intimidação, com o claro propósito de convencer os leitores mais desatentos de que, a despeito da decisão final caber a Lula, como manda a lei, sua alternativa única só poderá ser a extradição, o que curiosamente coincide com a reiterada defesa que a revista vem fazendo, em textos assinados, desde que o caso veio à tona. Coisas do tipo “Lula enfrentará ‘um desgaste’ (os destaques são meus) internacional desnecessário”; “estimulará o ‘recrudescimento’ de conflitos com parte do STF”; “o Supremo ‘deu autonomia decisória’ ao presidente, mas ela não pode ser desconexa”; “nunca antes o Executivo deixou de cumprir uma extradição decidida pela Corte”; “cada um dos argumentos brandidos por Tarso Genro, para justificar a concessão de refúgio, foi ‘sumariamente desmoralizado’ pelos ministros”. Isso sem contar com o reforço do velho e surrado argumento de autoridade do tipo “vários ministros” do Supremo disseram isso (Quem cara-pálida?); “especialistas ouvidos” disseram aquilo (Quem, de novo, cara-pálida?); “um advogado constitucionalista” sustentou aquilo outro (Qual o nome dele?); “outro especialista” avaliou desse ou daquele jeito (Quem é a sábia criatura?). Ao final, o texto oferece um lampejo de factualidade, lembrando que a posição definitiva cabe ao presidente da República, mas a recaída é imediata: o anônimo jornalista questiona “se valerá a pena o desgaste”. Trata-se de um dos expedientes mais clássicos da manipulação discursiva. Faltou fidelidade canina aos fatos.

23 Nov

Sintonia de gênios

O fenômeno mais enriquecedor e fascinante do ato de ler é ele nunca se curvar aos limites do texto. O que pretendo dizer com isso? Um texto tem, sim, seus limites, o que se convenciona, inclusive, pelo uso do chamado ponto final. Mas tais limites são apenas físicos. Discursivamente falando, para buscar apoio em Umberto Eco, todo texto é sempre uma obra aberta. Nunca começa e termina em si. Cada palavra, cada frase, cada parágrafo remetem sempre a tantos outros textos, a tantas outras situações, a tantos outros episódios e circunstâncias, formando uma espécie de rede, esta sim, sem limites e fronteiras. Um texto, portanto, será sempre mero pretexto para chegarmos a outros e infinitos textos. Estou a me lembrar disso a propósito da leitura de recente artigo de José Saramago no site Carta Maior. Nele, o escritor português, mesmo advertindo não ter conhecimentos técnicos acerca do vírus da chamada gripe suína, arrisca uma análise sobre os acontecimentos de bastidores da pandemia que continua preocupando o mundo. E alicerça seu texto, segundo ele próprio ressalta, na leitura de outros textos: “Leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão e me valho de alguma leitura providencial.” Depois de fazer referência a alguns trabalhos de natureza científica, a dados estatísticos e às evidências do absurdo crescimento do setor pecuário, por ele comparado à indústria petroquímica, o escritor denuncia o extraordinário poder econômico e político dos grandes conglomerados empresariais avícolas e bovinos, ao ponto de influenciarem os rumos de investigações que possam revelar alguma responsabilidade do setor na propagação do vírus da gripe suína. Pois bem. Antes mesmo de terminar a leitura do texto de Saramago, meu sentimento de leitor viu-se alertado para o fato de que, em algum outro momento, havia lido algo que, direta ou indiretamente, tinha sintonia com aquelas questões. Insisti com meu disco rígido. Foi bater e ver. Semanas atrás havia me deliciado com uma crônica de Machado de Assis escrita em 1893. Nela, o escritor brasileiro reflete sobre as doenças e o modismo dos medicamentos e ressalta que, da indústria humana, tudo se pode esperar: “O homem receitará tonturas ao homem. Haverá fábrica de resfriados. Vender-se-ão calos artificiais quase tão dolorosos como os verdadeiros.” A leitura de Saramago, que me conduziu a Machado, revelou-me uma perfeita sintonia entre gênios.

16 Nov

A tropicália falida do Caetano

A princípio, julguei tratar-se apenas de comportamento oportunista e preconceituoso de quem, com deboche e excentricidade, usa a mídia como veículo de autopromoção. Mas a coisa ficou a martelar meu juízo. A inquietar meu sentimento de cidadania. Aquela declaração do senhor Caetano Veloso, como que por encomenda ao mais conservador dos jornalões, havia me tirado do sério. Para ele, Lula é um analfabeto. Ora, é fato que o ex-metalúrgico, pelas circunstâncias que a vida lhe impôs, formalmente cursou apenas o ensino fundamental. O seu maior título escolar foi o de torneiro mecânico no SENAI. Mas daí taxá-lo de analfabeto só pode ser fruto de profunda ignorância ou de patético ato falho revelador do grosseiro comportamento de quem engana almas e mentes há décadas. Como naveguei em tantas e desafiadoras canções do baiano, prefiro ficar com a primeira opção. Estou aqui a me lembrar de um livro onde a educadora Magda Soares assinala que as práticas de letramento, que envolvem as práticas sociais acumuladas ao longo da vida, vão muito além do processo de escolarização e são responsáveis “por reforçar ou questionar valores, tradições e formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais”, o que supera o conceito tradicional de alfabetizado e analfabeto. Caetano não tem o dever de conhecer esses princípios, mas não tem o direito vomitar publicamente suas impropriedades. A mesma Magda ressalta, ainda, que “o analfabeto é aquele que não pode exercer em toda a sua plenitude os seus direitos de cidadão”. Como é que alguém que chegou à presidência da República e, após quase oito anos no cargo, recebe o carinho e a aceitação de 80% do povo brasileiro não terá exercido seus direitos de cidadão? Como considerar analfabeto quem – e agora apelo ao ex-ministro Delfim Netto – se dispôs a “desafiar o humor de um regime autoritário, criar o maior sindicato obreiro do Hemisfério e, sem passar pela academia, sem ao menos ler Gramsci, Althusser, Keynes ou Schumpeter, tornar-se o ‘cara’ que conduziu o grande país a vencer a recessão antes da maioria dos principais protagonistas globais?”, para ficar só nesses exemplos? Qual analfabeto teria conhecimento e habilidade política para deter o mérito “de ter trazido ao convívio da contemporaneidade dezenas de milhões de brasileiros”, num extraordinário trabalho de inclusão social? Há que se perdoar a ignorância e se compreender o ranço preconceituoso de Caetano, mas não se pode dizer que ele é analfabeto. Como analfabetos não eram Patativa do Assaré, Gonzagão, Cora Coralina, Helena Meireles, Mestre Vitalino, João do Valle, Manoel Querino, Lupicínio Rodrigues, Machado de Assis e tantos outros que agora não me vêm à memória.

10 Nov

A terceira via feminina

Não há mais apenas duas mulheres, Dilma Rousseff e Marina Silva, na condição de pré-candidatas à presidência da República. Poucos dias atrás, de fininho e sem que ninguém esperasse, eis que a senhora Míriam Leitão, colunista de O Globo, nos surpreendeu a todos e lançou-se, também, na disputa pela presidência. Esse fato novo quebra com a lengalenga monótona entre José Serra e Aécio Neves e o já indisfarçável desejo de um passar a rasteira no outro e representar o ninho tucano na disputa pelo cobiçado cargo. De certa forma, apimenta ainda mais a corrida, que agora passa a contar com três mancebos, aí incluído o senhor Ciro Gomes, e três mulheres, numa configuração nunca antes presenciada, pelo menos até onde alcança minha combalida memória. Confesso ter ficado impressionado com a desenvoltura e a firmeza do libelo de que se valeu a senhora Leitão para desbancar as pretensões de seus atuais colegas de oposição. Demonstrando não ser neófita no ramo, inicia seu discurso com um toque filosófico que marca todo o direcionamento do restante de sua fala: “O Brasil tem governo demais e oposição de menos”. Para o bom entendedor, ela bem que poderia parar por aí. Não satisfeita, porém, a empedernida candidata, ao mesmo tempo em que pratica seu esporte favorito – desancar Lula, ataca impiedosamente a oposição, taxando-a de omissa e covarde, porque tem medo da popularidade do presidente e não tem coragem de criticar o Bolsa Família, o carro-chefe de seus programas sociais. Não bastasse isso, aponta despreparo e incompetência em seus companheiros de trincheira, pondo em dúvida o conhecimento que eles têm, por exemplo, sobre “a lista de absurdos encontrados nas obras do PAC”. Para Serra e Aécio, só faltou Leitão dizer que não reúnem as mínimas condições de disputa, uma vez que mantêm um comportamento de conivência e cumplicidade com as ações do governo. Para o mineiro, sobrou uma crítica mais dura. Acusa-o de desinformado, ao aplaudir o presidente Lula quando do lançamento do PAC das cidades históricas, que ela lembra, num tom flagrantemente nostálgico, ser uma versão empobrecida de uma proposta de seu ídolo Fernando Henrique Cardoso. Pra encurtar a história, Míriam trata seus colegas de oposição como ginasianos amadores que muito têm a aprender em política. Não estou inventando nada. O texto está lá na página 14 da edição do Diário do Amazonas de 27 de outubro último. Basta acessar a edição eletrônica.

26 Out

A força da ciência

Estou aqui me lembrando da leitura de um artigo recente do ex-ministro Delfim Netto. No texto, ele assinala o bom desempenho do Brasil, ao sair da crise sem as consequências nefastas enfrentadas por outros países, inclusive os grandes, e aproveita para ressaltar que o caminho inevitável para assegurar esse ritmo de desenvolvimento está na manutenção e no avanço dos investimentos em tecnologia e inovação. Por outro lado, fazendo coro com outros analistas da cena política mundial, Delfim concorda que a hegemonia do país mais poderoso do planeta não se sustenta por mais de trinta anos, mas faz questão de destacar um aspecto importante da arma com que os americanos vêm enfrentando essa ameaça anunciada. No auge da crise e contrariando as perspectivas mais conservadoras, o presidente Obama anunciou a determinação de investir pesado em ciência, tecnologia e inovação. Isso pode até parecer um contra senso, mas demonstra que os americanos têm toda clareza de que o país mais poderoso do planeta sempre alicerçou sua hegemonia no avanço tecnológico. É preciso salientar, entretanto, que avanço científico e tecnológico não se consegue por obra do acaso. É decorrência da prioridade que se dá aos investimentos voltados para a formação de capital intelectual. Aliás, é bom lembrar que a Alemanha, arrasada durante a segunda grande guerra, deveu muito de sua recuperação à reserva qualificada de cérebros, muitos dos quais, inclusive, capitalizados pelos Estados Unidos. Mas a propósito de que estou trazendo à tona essas questões? Para concordar inteiramente com o que preconiza Delfim Netto e destacar que, até onde tenho acompanhado, o Brasil está de fato despertando de certo conformismo e partindo para ações mais agressivas no campo da ciência, tecnologia e inovação, o que passa, repito, pela prioridade na formação de recursos humanos. Particularmente no que tange ao Amazonas, há que se destacar as parcerias com a Capes e o CNPq, anunciadas na sexta-feira passada, possibilitando investimentos na formação de 170 pesquisadores doutores em áreas estratégicas, que, somados aos 360 já financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas – Fapeam, representam um feito histórico e revolucionário para a ciência na Amazônia.

19 Out

Novo diário de bordo

Ocupei a poltrona 27-D, corredor, conforme marcado em meu cartão de embarque, posto de observação que considero estratégico. Vôo longo, três horas e quarenta e cinco minutos, São Paulo-Manaus. Conforto padrão Gol. Largo e confortável corredor central onde, minutos antes, havia presenciado o entalamento entre um passageiro, de porte franzino, e uma mala daquelas que ocupam altura e largura do bagageiro, transportada por uma senhora um pouco acima do peso que, esbaforida, suando feito chaleira, quase em estado de desespero, brigava por uma poltrona que não era a sua. O comissário precisou intervir. Não só para desatar o nó, que já provocara um longo congestionamento de malas e passageiros ao longo do corredor, como também para convencer a criatura entalada de que a sua poltrona era a 12-A e não a 21-A. Nova confusão. Mala em punho, olhos esbugalhados, numa espécie de abre-alas, ela resolveu partir rumo à fileira 12, no contra fluxo, disposta a não respeitar obstáculos em seu percurso. Não sei se por temor à mala ou à sua fúria, milagrosamente o caminho se abriu como o Mar Vermelho. Contornada a escaramuça, dei-me conta, feliz, de que as duas poltronas à minha direita estavam vazias, o que me permitiria administrar o espaço com o absoluto conforto que só a Gol oferece. Contei com o ovo da galinha antes do tempo. Senti a pressão de uma enorme sacola até o talo de plantas sobre o meu ombro esquerdo. Era uma criatura agasalhada para um frio que, se viesse, surpreenderia os mais estudiosos especialistas em mudanças climáticas. Depois de me obrigar a conviver de perto com alguns talos de plantas que insistiam em fugir da sacola, sentou-se, mostrando-me, sem que eu tivesse solicitado, o cartão de embarque que indicava a poltrona 27-F. Para minha surpresa, o vizinho estava com o Rexona inteiramente vencido! Para meu desespero, a única poltrona livre era a 27-E. Era trocar seis por meia dúzia. Estóico, preparei-me para aquela adversidade sem saber que era só o começo. Após a decolagem – justo o que eu temia –, ele mudou-se para a 27-E, exatamente ao meu lado, alegando medo de viajar na janela. Haja cookies, suco de laranja caseiro e muita paciência.

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