Odenildo Sena

28 Out

Unindo forças contra a malária

As fundações estaduais de amparo à pesquisa representam a grande novidade no estímulo ao avanço da ciência no Brasil. Até há pouco tempo restritas a cinco estados, hoje elas somam vinte e três instituições. Ao lado das agências federais de fomento, somam esforços e recursos para oferecer condições favoráveis a que o país ocupe o seu merecido lugar ao lado de outras nações que despertaram para o fato de que produzir conhecimentos científicos e inovação tecnológica são fatores essenciais ao desenvolvimento e à consolidação da soberania. Reporto-me a isso em função de três considerações que têm estreito nexo entre si. A primeira tem a ver com o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), dando conta de que o Brasil está entre os 30 países com maior incidência de casos de malária, particularmente concentrados na Região Norte e nos estados do Mato Grosso e Maranhão. Apesar do desencontro dos números (A OMS diz terem sido registrados 1,4 milhão de casos da doença no país; o ministro da Saúde bate pé que foram apenas 550 mil), o fato inquestionável é que o número de mortes causado pela doença, principalmente entre crianças menores de cinco anos, o rastro de sofrimento deixado pelo caminho e a fabulosa soma de recursos públicos investida no seu controle são razões suficientes para empreender uma luta mais sistemática contra a malária. A segunda consideração – que representa uma grande novidade – diz respeito à iniciativa do Amazonas, por meio de sua fundação de amparo à pesquisa – Fapeam, em articular a criação de uma rede de pesquisa em malária – a Rede Malária – que, solidariamente, encontrou eco em seis outros estados da federação – Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso. Somados, os recursos estaduais e federais, via CNPq, já indicam investimentos de 20 milhões de reais, podendo alcançar os 30 milhões com a boa parceria do Ministério da Saúde. Na prática e no formato da Rede, pela primeira vez, e de forma articulada, tantas fundações estaduais de amparo à pesquisa, instituições federais e cientistas unirão esforços, recursos e diferentes competências científicas em prol de uma causa objetivamente comum. A terceira e última consideração tem como foco o IX Encontro Nacional de Pesquisadores em Malária, sediado em Manaus a partir deste domingo e reunindo mais de duas centenas de cientistas brasileiros e de diversas outras nacionalidades. Não poderia haver melhor cenário para socializar o ineditismo da ação, que resultará na criação da Rede Malária.

 

18 Out

Era só o que faltava

Acredite, se quiser. Acostumado a viver de apagar incêndios, com ações de caráter sempre imediatista, o Brasil já convive com uma situação no mínimo inusitada: a carência de capital intelectual no setor tecnológico, notadamente nas chamadas engenharias, aponta para o comprometimento do avanço econômico do país. Diante desse flagra, denunciado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), começam a surgir idéias para amenizar o problema. Sabe-se que há um número considerável de engenheiros desenvolvendo atividades no exterior. Mas como trazer essa gente de volta, com salários pouco compatíveis em relação aos pagos nos países onde se encontram? E preciso privilegiar investimentos para a formação de mestres e doutores nas engenharias. Mas como obter retorno, se a demanda está minguando a cada ano e os estudantes da área são fisgados com ofertas irrecusáveis de estágio, o que muitas vezes redunda no atraso da conclusão do curso e torna pouco atrativa a pós-graduação? Outra saída é investir pesadamente em pesquisa. Mas de que adiantaria, se sobram recursos e faltam projetos e pesquisadores nessas áreas? A situação é muito mais séria do que se imagina, porque põe um freio no desenvolvimento, justo quando o país desfruta de investimentos assegurados e, o que é mais importante, toma-se plena consciência de que não há outro caminho para ele ocupar o seu merecido lugar ao sol senão pelo avanço da ciência e da inovação tecnológica. Penso que tudo o que foi, por pura provocação, contestado acima, precisa continuar sendo feito. Mas se faz necessário investir a longo prazo, a perder de vista. É preciso começar a formar hoje os engenheiros e os cientistas de amanhã. E é exatamente aqui que entra o grande mérito do Programa Ciência na Escola, o PCE, iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas em parceria com a Sect, Seduc e Semed. Pioneiro no país, ele investe no estímulo e nas condições para que alunos e professores do ensino público fundamental construam sua paixão pela ciência. E tudo como manda o figurino. Os projetos são avaliados por um comitê de especialistas, que julga o seu mérito, os participantes recebem bolsa de estudos da Fapeam e se obrigam, ao final de seis meses, a apresentar publicamente o produto de seu trabalho, em rigoroso processo de avaliação. Em outras palavras, o programa mira no presente para acertar no futuro, além de representar uma acertada política de inclusão social pela ciência.

14 Out

A devassidão do mercado

Não sei quem é o mercado. Nunca o vi mais gordo. Nem sei onde ele mora. Como diria o velho Machado, não o conheço nem de vista nem de chapéu. Também duvido muito que o nosso mais célebre escritor tenha tido qualquer interlocução com esse ente. Não me cabe, portanto, falar de nenhuma proximidade com a tal criatura. Tenho vivas na memória, entretanto, algumas lembranças de terceiros que diziam ou pareciam ter bastante intimidade com o dito. Sei, por exemplo, que no reinado do sociólogo-presidente-do-Brasil, dizia-se a bocas largas que o mercado era uma referência de juízo e competência, em quem se poderia depositar cega confiança. Tanto que carregava consigo o extraordinário poder de administrar as relações comerciais e empresariais entre os cidadãos de um país e do mundo. Tanto que a mídia, pela voz uníssona de nossos abalizados economistas de plantão, referia-se a ele na intimidade como “mercado regulador”, salvação de qualquer pedaço do mundo que compreendesse e se submetesse a uma tal de globalização, também conhecida por muitos, mas vista por tão poucos. Tanto que se generalizou a fé, ardorosamente, aliás, professada e defendida com fervor pelo sociólogo-presidente-e-seus-fervorosos-seguidores, de que ao Estado caberia recolher-se à sua insignificância e estupidez, entregando as rédeas da economia da nação ao mercado, só ele competente para dar conta da complexa tarefa de entender e bem administrar os desafios impostos a nós pobres mortais. Tanto que, em nome desses inabaláveis princípios, vivemos, como todos bem se lembram, a desenfreada febre da privatização. Vendeu-se quase tudo no país. A Petrobrás, nossa galinha dos ovos de ouro, escapou fedendo, como se diz pelas bandas de cá. Mesma sorte não coube à nossa Cosama, que, em compensação, teve merecidos momentos de glória nessa campanha eleitoral. Enfim, proclamava-se que o mercado tinha que ser grande e o Estado mínimo. Continuo sem entender muita coisa. Os jornais dizem que o mercado anda bastante nervoso e inquieto, tem perdido a calma. Na semana passada chegou a se estressar e entrar em pânico. Nem o velho Freud teria explicações para isso. Só sei dizer que, de minhas lembranças, sempre que enfrenta crises existenciais, o mercado torna-se perverso, devasso, irresponsável e oportunista. E tem sempre o odioso hábito de curar sua ressaca às custas de quem não comeu, não bebeu e nada teve a ver com sua orgia.
 

07 Out

O fantástico mundo do texto e da leitura

Não estou dizendo nenhuma novidade. Apenas lembrando um fenômeno pouco perceptível, mas de enorme alcance e complexidade. Ao se postar diante de um texto, incluindo naturalmente este que você começa a ler, o leitor nunca se comporta como um ser passivo. Embora, no geral, ele não tenha consciência disso, a sua interlocução é permanente, sem que para isso precise esboçar qualquer manifestação visível: algumas vezes torna-se cúmplice do que lê, outras, reage com indignação; num dado momento propõe correções ao rumo do texto, em outro, silencia ou até se acovarda; em certas circunstâncias absorve linearmente o que está sendo dito, em outras, remete o texto a outros textos e contextos, além de, ao longo da leitura, construir textos paralelos que obedeçam aos seus interesses e às suas representações sociais internalizadas. Enfim, o texto não é um objeto acabado. Trata-se de uma obra sempre aberta, de uma rede complexa de infinitas relações que estão sempre além e aquém dele próprio. Um exemplo? Quem já não passou pela experiência de produzir um texto, permitir a ele um período de descanso em algum canto da mesa ou alguma gaveta e, num dado momento, reencontrá-lo e se dar conta de que não era bem aquilo que se desejaria dizer, não era bem daquele jeito que se queria construir algumas frases, não era bem aquela a melhor posição de um adjetivo ou advérbio, não era exatamente aquele efeito de sentido que se desejaria atribuir? Uma explicação? Ao retomar contato com aquele texto, outras e infinitas leituras já haviam gerado tantos e tantos outros textos que passaram a ocupar espaço no disco rígido de nossa memória, desbancando, inclusive, outros textos aparentemente salvos e consolidados. Razões não faltam para isso. Uma delas está no fato de que um texto, seja ele qual for e de que natureza for, nunca reflete um produto de pura originalidade. Sempre será resultado de fragmentos de outros textos que, velada ou explicitamente, ao longo de nossa experiência de vida, acabaram sendo absorvidos. Trata-se da intertextualidade ou da interdiscursividade referidas pelos estudiosos da literatura e do discurso. O trabalho, portanto, de quem escreve um texto consiste na tentativa de dar unidade a pedaços de textos que não são seus e, o que é mais sério, sob ordens que a própria razão desconhece. Trata-se de uma obra de engenharia e arquitetura. Somos, enfim, meros atravessadores dos textos alheios. Ou você ainda tem alguma dúvida de que este texto que acaba de ler é, no fundo, uma uma bem engendrada colcha de retalhos?

29 Set

O jornalismo da neutralidade

Gosto muito mais do tempo em que se acreditava piamente que o chamado texto jornalístico era marcado pela neutralidade e que o jornalista era o sujeito que tinha a sagrada missão de passar aos leitores o relato fiel dos acontecimentos, sem nunca manchar a matéria com o que achava ou deixava de achar. Opinião? Nem pensar! Presença camuflada ou não das marcas da primeira pessoa do verbo? Uma mácula inaceitável que comprometia a pureza e a imparcialidade do texto! Uso de adjetivos? Ostensivamente proibido! Denunciava o supremo envolvimento do profissional com os fatos e dava margem a que seu texto fosse classificado como subjetivo. Palavras de efeito conotativo? Prática desaconselhável!Poderia suscitar interpretações dúbias, portanto diferentes daquela projetada pelo autor da matéria. A escolha deveria recair sempre nas palavras de efeito denotativo, tidas como as que melhor expressavam a realidade. Todo esse zelo chegava até aos editoriais. Apesar de tradicionalmente representarem o ponto de vista do veículo, eram produzidos com a parcimônia de quem falava na condição de um sujeito sempre distante, intangível, neutro e, por conseqüência, dono de verdades inatacáveis. Os textos que se permitiam contrariar essas regras eram assinados pelos colunistas, a quem era imputada a responsabilidade por eventuais desatinos. Lembro-me muito bem de que textos outros passíveis de transgredir as regras de imparcialidade apareciam, na mídia impressa, com uma cercadura. É fato, por outro lado, que os modernos estudos sobre o fenômeno da linguagem, notadamente no campo da Teoria do Discurso, desconstruíram a ilusão da neutralidade. Pelo princípio de que o social e o ideológico são constitutivos da linguagem, a subjetividade passou a ser vista como inerente a ela. Ainda assim, eu continuo gostando mais daquele tempo em que havia “neutralidade” nos textos jornalísticos. Pelo menos essa crença desafiava os profissionais da área a focar suas matérias muito mais nos acontecimentos, o que é perfeitamente possível, e menos naquilo que acham ou deixam de achar. Muito mais que mediadores, hoje eles se acham os donos absolutos e intocáveis da verdade.

22 Set

Canalhice a toda prova

Quem não concordar que atire a primeira pedra: não há serviço mais humilhante, mais desrespeitoso e mais canalha do que o dispensado pelas empresas que atendem seus usuários pelo chamado call center. A começar pela interlocução inicial, que obriga o cidadão a escolher entre as infindáveis e confusas opções que lhe são impostas por uma voz metálica e impessoal. Mas a situação não pára por aí. Essa escolha nunca direciona para o atendimento que você deseja. É sempre necessário perambular por outras teclas, obediente ao comando imperturbável da dita e odiosa voz. Penso que o propósito inicial é mesmo fazer com que a pessoa desista logo de entrada, reduzindo a demanda pelo atendimento. Sem contar com a longa tortura inicial de espera, ao longo da qual a pessoa é obrigada a ouvir, numa interminável repetição, os apelos para aquisição dos mais variados pacotes de invejáveis serviços, como se ela não estivesse perdendo seu precioso tempo exatamente para reclamar deles. E sem contar, ainda, com toda a probabilidade de, na sorte de ser atendido, a ligação cair (será acidental?) e o otário (do cliente, é claro!) precisar iniciar todo o processo e entregar mais trinta minutos a uma hora de seu preciosíssimo tempo a esses abomináveis atravessadores de plantão. Recentemente fui vítima de uma dessas situações surrealistas e absurdas. Há quase uma semana sem o serviço de banda larga (?), vi-me obrigado a enfrentar esse rosário. Após fornecer repetidos dados de meu prontuário de cliente e os sucessivos intervalos de espera (o sistema está sempre muito, muito lento, embora a empresa venda serviços de banda larga), narrei minha história (inúmeras vezes interrompida pelo enfadonho pedido “um momento senhor”) e apelei pelas providências. Em seguida aos vários truques manjados de liga e desliga o modem, a voz da criatura sentenciou que no dia seguinte mandaria um técnico à minha residência, não sem antes, para minha surpresa, ameaçar que, caso não estivesse em casa, eu seria obrigado a pagar uma taxa de “visita improdutiva”. Indignado, lembrei-lhe que há uma semana estava improdutivo e perguntei quem pagaria por isso. Respondeu-me, armado de deboche e cinismo, quase rindo, que nada poderia fazer. Pedi para falar com seu superior, disse-me que não era possível. Insisti, apelando para os meus direitos de cidadão. A criatura fez ouvido de mercador e silenciou. Dei-me conta de que o mundo de lá é dos nets; o daqui, dos otários.

16 Set

Da leitura à infância

Um texto não é apenas um repositório de informações. Esse é o mais visível de seus propósitos, mas há um sem número de outros que formam uma complexa teia de relações. Um texto não tem um fim em si. Ele é um elemento intermediário. No mínimo um pretexto que conduz o leitor a outros textos, outros mundos e a uma infinidade de situações vividas ou a viver. Um despertador que aciona lembranças e segredos adormecidos em nossa alma. Explico-me. Lia um pequeno texto, em uma dessas revistas de bordo, que falava de uma nova opção de lazer chamada “turismo eólico”. Trata-se de conhecer e curtir vastos campos enfeitados por gigantescos moinhos, usados para a geração de energia limpa e renovável, coisa que os europeus, com muita sensibilidade, apelidaram de “fazendas de vento”. Num dado trecho – e só me dei conta disso minutos depois –, em que autor ressalta ser muito antiga a admiração humana por moinhos, deixei lentamente a revista de lado e fui conduzido a um outro contexto, bem distante no tempo, mas vivo na memória. Meus moinhos e cata-ventos! Eu os construía com paciência e tenacidade quixotescas. Recolhia sobras de madeira desprezadas no fundo do quintal e aparelhava dois pedaços estreitos e retangulares. Calculava com exatidão o seu ponto central, no qual abria um pequeno furo com ajuda de uma ponta de um prego em brasa aquecida no velho fogareiro da casa, juntava-as em forma de cruz e fixava as duas peças com miúdos preguinhos. O passo seguinte era catar latas de óleo (os quintais de minha infância eram sempre férteis em matérias-primas!), abri-las com muito cuidado e cortar quatro pedaços em tamanhos iguais que, pregados na extremidade de cada haste de madeira, davam forma a uma espécie de hélice, que, com os complementos, lembravam um avião sem as asas. Restava o desafio de prender o cata-vento na ponta de uma longa vara, ergue-la e fixá-la com a ajuda de barbante e pedaços de arame velhos. Agora era deitar no chão do quintal e, tendo o céu por testemunha, ver o vento dando incessante vida àquela máquina maravilhosa. O motivo de minha paixão pela brincadeira, tão simples, um dia vou encontrá-lo em outros textos e outras leituras.

10 Set

Se a moda pega

Curioso esse velho detalhe de nossa cultura. Há leis e leis, embora todas religiosamente aprovadas no Congresso Nacional e, portanto, em plena vigência. Acontece que, independentemente da liturgia legal que as coloca em funcionamento, elas passam por um necessário estágio probatório, coisa impensável em outros países. Para isso até já pactuamos o alargamento do sentido de um verbo, a fim de aferir o cumprimento satisfatório ou não desse período de provação. Uma espécie de consulta às bases. Antes, porém, desse peculiar excesso de zelo democrático, faz-se bastante barulho, prende-se e arrebenta-se, sobretudo com a indispensável ajuda da mídia, que durante algumas semanas oferece destaques a casos pontuais e declarações bombásticas recheadas de rigor das autoridades da área. Costuma-se ter um veredito que indica se a lei pegou ou deixou de pegar. Se o resultado contempla o primeiro caso, cuida-se de criar mecanismos e procedimentos que dêem seqüência à fiscalização de seu cumprimento. Se contempla o segundo, lenta e paulatinamente a lei vai caindo no esquecimento e, um pouco lá adiante, passa a merecer o rótulo de lei que não pegou e, portanto, merece o descrédito e a indiferença tanto das autoridades quanto da população. Não foi diferente com a primeira versão da chamada “lei seca”, que, salvo engano (é no que dá cair no esquecimento!), estabelecia uma tolerância máxima de 4 ou 6 decigramas de álcool por litro de sangue. Como não pegou, o congresso lançou uma segunda versão, tipo 0.2% turbinada. Tão rigorosa, que os mais paranóicos suspenderam até o uso do Cepacol, similares e genéricos. Tão ostensiva, que não faz mais sentido dizer, como nos versos do poetinha Vinicius de Morais, que os bares estão repletos de gente, porque hoje é sábado. Apreciador que sou da loura suada às sextas-feiras, torço para que essa lei não corra nenhum risco de pegar ou não, mas que seja simples e naturalmente cumprida e fiscalizada como deve ser qualquer legislação. O resto fica por conta de uma radical mudança de hábito, compensada pelo reduzido número de acidentes fatais nas estradas, o que evita dor e sofrimento e gera uma enorme economia para a saúde do país.Curioso esse velho detalhe de nossa cultura. Há leis e leis, embora todas religiosamente aprovadas no Congresso Nacional e, portanto, em plena vigência. Acontece que, independentemente da liturgia legal que as coloca em funcionamento, elas passam por um necessário estágio probatório, coisa impensável em outros países. Para isso até já pactuamos o alargamento do sentido de um verbo, a fim de aferir o cumprimento satisfatório ou não desse período de provação. Uma espécie de consulta às bases. Antes, porém, desse peculiar excesso de zelo democrático, faz-se bastante barulho, prende-se e arrebenta-se, sobretudo com a indispensável ajuda da mídia, que durante algumas semanas oferece destaques a casos pontuais e declarações bombásticas recheadas de rigor das autoridades da área. Costuma-se ter um veredito que indica se a lei pegou ou deixou de pegar. Se o resultado contempla o primeiro caso, cuida-se de criar mecanismos e procedimentos que dêem seqüência à fiscalização de seu cumprimento. Se contempla o segundo, lenta e paulatinamente a lei vai caindo no esquecimento e, um pouco lá adiante, passa a merecer o rótulo de lei que não pegou e, portanto, merece o descrédito e a indiferença tanto das autoridades quanto da população. Não foi diferente com a primeira versão da chamada “lei seca”, que, salvo engano (é no que dá cair no esquecimento!), estabelecia uma tolerância máxima de 4 ou 6 decigramas de álcool por litro de sangue. Como não pegou, o congresso lançou uma segunda versão, tipo 0.2% turbinada. Tão rigorosa, que os mais paranóicos suspenderam até o uso do Cepacol, similares e genéricos. Tão ostensiva, que não faz mais sentido dizer, como nos versos do poetinha Vinicius de Morais, que os bares estão repletos de gente, porque hoje é sábado. Apreciador que sou da loura suada às sextas-feiras, torço para que essa lei não corra nenhum risco de pegar ou não, mas que seja simples e naturalmente cumprida e fiscalizada como deve ser qualquer legislação. O resto fica por conta de uma radical mudança de hábito, compensada pelo reduzido número de acidentes fatais nas estradas, o que evita dor e sofrimento e gera uma enorme economia para a saúde do país.

01 Set

Quousque tandem?

A loja é bem iluminada e toda arrumadinha. Móveis coloridos e bem distribuídos. Mesas em designe arrojado. Apenas duas em efetiva ação. As demais, ocupadas por funcionários que se revezavam, acionavam teclas, concentravam-se em algum ponto no infinito, olhavam fixamente para algum cliente, como se dissessem, em silêncio, estou aqui, mas não estou nem aí pra vocês, e estranhamente se levantavam e iam perambular pela sala. Feita a leitura inicial do ambiente, dirijo-me a um funcionário. Pergunta-me se quero uma senha. Entrega-me a 103. O placar luminoso indica 96. Coisa pra vinte minutos, penso otimista. São 17h20. Ocupo a pequena sobra de uma poltrona vermelha. Faço uma varredura no ambiente. Estaciono em uma placa luminosa e saliente localizada por trás de duas funcionárias que ocupam o balcão reservado para o caixa. “Quem tem Tim tem mais”. Fico imaginando o que poderia vir no silêncio após aquele “mais”. Viajo bonito. Tranqüilidade. Segurança. Comodidade. Qualidade e rapidez no atendimento. Invade-me um ar de prepotência e orgulho por ser cliente. Desperto do breve sono. São 18h45. O moço pendurado ao telefone em uma das cabines gesticula nervosamente. Lá já estava quando cheguei. No painel, senha 97. Move-se em direção à segunda mesa uma senhora. No exato momento, o funcionário levanta-se, dá uma bela e explícita espreguiçada e a deixa sozinha. Dirige-se ao bebedouro, de onde, enquanto se abastece, que ninguém é de ferro, observa calmamente pelo vidro o agitado movimento na praça central do shopping. Resolvo dar uma circulada. Há seis na minha frente. Volto às 19h40. Senha 98. Não há mais onde sentar. Aproveitaram-se de minha ausência. Triplicou o número de pessoas. Aquele moço da cabine continua ao telefone. Agora sentado e mais calmo. Num esforço de resignação, encosto-me a uma disputada coluna. Fecho os olhos. Afinal, o que poderia vir após o silêncio daquele “mais”? Paciência? Tenacidade? Fôlego? Delírio? Quem está delirando sou eu! Desperto com o plim-plim do painel. É a minha vez! Ledo engano. Senha 99! São 20h16. Sinto pena do moço da cabine, que não consegue resolver o seu problema com alguém do outro lado da linha. Tento um esforço beneditino para me distrair. Não adianta. Idéia fixa naquele silêncio depois do “mais”. A senha 99 persiste. Concentro-me detidamente na frase. 20h32. Encaixo um conhecido e prazeroso palavrão depois do “mais”, jogo a senha no lixo e retiro-me da loja com a pior das indignações: não ter a quem reclamar. Até quando abusarão de nossa paciência?

31 Ago

O império de Gérson

Cena 1. Interior de um banco. Longa fila. Sofrida espera para chegar na boca do caixa. Duros quarenta minutos. O ar condicionado não dá conta. O clima torna-se pesado e a respiração ofegante. Ouve-se o ruído dos abanos improvisados com boletos bancários de água, luz, telefone. Do outro lado, separado por sua redoma de vidro e alheio ao burburinho, o caixa opera sem pressa e mecanicamente seus gestos. No canto, à esquerda, um segurança de peito empinado acompanha impassível aquela movimentação. De repente, parecendo estar ali por puro capricho, surge a figura. Desinibida, cumprimenta todos na fila, como se fossem seus velhos conhecidos. O segurança recebe uma saudação especial. É merecedor de um breve e alegre papo, além de tapinhas nas costas. Num passe de mágica e com absoluta naturalidade, a figura já está na boca do caixa sendo atendida. Repete o ritual de sorrisos e cumprimentos até sumir por trás da porta giratória. O que para outros demorou média de quarenta minutos, para ela resumiu-se a três.

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