Odenildo Sena

09 Mar

A ciência chega à escola

A princípio, a ação foi vista com descrença ou quase desprezo. Afinal, pesquisa é coisa pra gente grande, pra mestres e doutores recolhidos aos laboratórios das universidades e dos institutos de pesquisa. Ledíssimo engano. Apesar do curto tempo da experiência, a prática tem demonstrado que o espaço de sala de aula no ensino fundamental e médio abriga um universo inesgotável de talentos para a pesquisa que precisam apenas de um componente chamado estímulo e oportunidade. A receita está em não fazer nada diferente daquilo que tradicionalmente acontece quando se financia pesquisa para mestres e doutores. Ou seja, concorrência pública, por meio de editais, avaliação do mérito do projeto por especialistas das diferentes áreas do conhecimento e rigoroso acompanhamento através de relatórios técnicos parciais e final, para aferição dos resultados alcançados. A soma desses ingredientes é a receita que vem sustentando o Programa Ciência na Escola (PCE), iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas em parceria com a Seduc e a Semed. Professoras e professores que têm seus projetos aprovados agregam em torno de si uma equipe de cinco alunos e alunas, todos bolsistas do programa, e, à medida que desenvolvem seus projetos de pesquisa, contribuem para a formação de uma nova cultura. A escola que, por tradição, é apenas reprodutora do saber, torna-se, também, fonte produtora de novos conhecimentos, o que representa um componente inovador e marcante no processo de formação, sobretudo por estimular talentos que poderiam ser desperdiçados e os encaminhar muito cedo para a carreira científica, estrada que o Brasil e, particularmente, o nosso estado, têm muito a percorrer, a despeito do muito que se tem feito nos últimos sete anos. O oportuno de falar sobre o PCE está no fato de que, nesta quarta e quinta-feira, na Arena Amadeu Teixeira, acontecerá a mostra pública da edição 2009 do programa, verdadeira maratona para apresentação dos resultados de 150 projetos desenvolvidos nas escolas públicas municipais e estaduais de Manaus. Ótima chance dos envolvidos prestarem contas à sociedade. Ótima chance de a sociedade conhecer e conferir os resultados que fazem o sucesso do programa.

02 Mar

Paixão e cinema

O cinema foi minha paixão e minha vida por tantos anos! Dividia isso apenas com o dever de ofício, marcado de perto por dona Maria do Carmo, de frequentar as aulas do ginásio no Marquês de Santa Cruz, em São Raimundo. Mas o cinema levava sempre vantagem, o que certamente explica o meu desempenho mediano nas matemáticas e geografias da vida. Fazia qualquer negócio para não me privar daquele fascinante mundo, sem fronteiras entre a vida e a ficção. Tempo houve em que fazia parte do seleto grupo comandado pelo turco Davi Alcides, zelador e porteiro e encarregado da nobre missão de todos os dias, a partir das nove da manhã, fazer a faxina no salão, que abrigava em torno de 400 poltronas da marca Cimo, que precisavam estar à altura dos exigentes frequentadores da sessão das 20h. Era um ritual que começava pela varrição de cada fileira, para recolher as centenas de papeis de bombons da safra da noite anterior, seguida da aplicação, poltrona a poltrona, do velho e bom óleo de peroba, que dava o brilho, mas, na nossa pressa, deixava a superfície sempre lambuzada, controle de qualidade que era aferido por amostragem pelo seu Davi Alcides. Uma vez ao mês, nossa mão de obra era acrescida da lavagem do salão, à base de latas d’água na cabeça e abundante sabão tuxaua. Essa força de trabalho era movida pela recompensa do livre acesso que tínhamos às sessões diárias. Para isso, éramos orientados a chegar bastante cedo, a fim de driblar o gerente do cinema, sempre de terrível mau humor. Achávamos justa aquela recompensa e a cumplicidade do nosso preceptor, sobretudo pelo fascínio de vivermos na enorme tela o que era negado aos colegas da mesma idade. Aos domingos, a jornada era redobrada, mas a recompensa, também. Havia a matinê das 9h, para a criançada, a sessão das 13h, com dois filmes intercalados por um seriado que terminava sempre com nosso herói em apuros, motivo para não abrirmos mão da sequência no domingo seguinte, o filme das 16h, frequentado por aqueles que estavam iniciando namoro, e a tradicional sessão das 20h, voltada para o público adulto – e nós, naturalmente. Após cada sessão, iniciava-se o ritual de varrição. Nossos domingos, portanto, eram dedicados integralmente à Sétima Arte. Ao final, contabilizávamos gloriosamente quatro filmes e um seriado assistidos! O cine Ideal era o nosso mundo e o nosso cinema Paradiso.

01 Mar

Apagando a história

Tenho acompanhado com atenção a luta travada pelos estrategistas políticos com vistas à próxima campanha presidencial. De um lado, os petistas e partidos que seguem a orientação do presidente Lula na perspectiva de que a melhor forma de derrotar os inevitáveis adversários do PSDB é forçar a disputa plebiscitária, comparando o que foi feito durante os oitos anos de cada partido no governo. De outro, o demo-tucanato e seus aliados, que parecem querer fugir da comparação como o diabo foge da cruz. No meio desse embate, os lampejos aqui e acolá do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, mais recentemente, fez uma frustrada tentativa de decolagem nas páginas do Estadão e de O Globo que deixou seus colegas em polvorosa. Afinal, contrariando todas as evidências, queria porque queria bater contabilidade de feitos entre o seu governo e o de Lula. De qualquer modo, para quem já pediu que esquecessem o que havia escrito, não deixa de representar uma nova postura. Para completar, veio Ciro Gomes, com sua diplomacia Caterpillar e sentenciou pesado: “O Fernando Henrique virou uma âncora para matar qualquer um. Quem se ligar a ele perde a eleição”. Ora, nessas alturas do campeonato, é absolutamente normal que pretendentes e padrinhos políticos procurem pavimentar a estrada mais segura para a vitória, trabalhando com elementos de sua análise e convicção. Mas daí a desqualificar a história passada como elemento fundamental para se julgar o presente e projetar o futuro é sofisma dos mais deslavados, é forçar a barra ao extremo. É o que vêm tentando algumas figuras com a alegação de que não se pode ficar preso ao passado. Claro que não, mas é tautológico que a avaliação do passado me dará balizamento necessário para escolhas mais seguras no presente que se refletirão no futuro. Se esse mecanismo fizesse parte de nossa cultura, já teríamos varrido muitos políticos do mapa. O senhor Arruda, por exemplo, depois da peraltice da violação do painel do Senado sob a batuta de ACM, jamais teria sido eleito para governador do DF. Vejo, portanto, como bastante salutar, sim, a comparação entre os feitos dos governantes, seu comportamento, seu caráter, promessas feitas e cumpridas ou não. Afinal de contas, é esse conjunto que compõe a história de cada um e de sua trajetória. E com isso não se brinca.

17 Fev

Análise de conjuntura

Confesso que nunca me achei preparado para fazer análise de conjuntura. Paciência. Todos têm suas limitações. Sei que tenho as minhas, dentre as quais essa. E não foi falta de tentativa. Período houve em que deixei de lado a minha cativa discrição da última fileira do auditório doutor Zerbini, tradicional e histórico reduto de nossas assembleias da associação dos docentes da Ufam, e fui premiado para residir 15 dias em Brasília, como representante junto ao Comando Nacional de Greve (CNG, como chamávamos). Vivíamos a estagnação das universidades federais, dos salários de docentes e servidores, dos investimentos em pesquisa, das bolsas de estudos. O ensino privado já avançava sem freio e sem cabresto. Em Brasília, tínhamos pesadas tarefas de mobilização durante o dia. Eu integrava um GT (tudo terminava sempre em uma sigla) com a nobre e desafiadora tarefa de visitar os gabinetes de deputados e senadores e convencê-los da justeza da nossa luta. Foi numa dessas peregrinações, já com a escuridão cobrindo o prédio do senado e as canelas doloridas de percorrer aqueles longos e suntuosos corredores, que conheci pessoalmente o senador Áureo Melo, nosso eminente representante naquela augusta casa. Daquele momento, lembro-me do aperto de mão, de identificar-me como sendo da terrinha e, naturalmente, entregar-lhe nossos panfletos e pedir solidariedade à nossa causa. Mas a cena inusitada que até hoje permanece gravada em minha memória é a do nobre senador amazonense, baixinho e gordinho, deixando seu gabinete, paletó um pouco justo, com os três botões ameaçando saltar em direção ao primeiro interlocutor, atracado a duas vistosas palmas de banana que, até hoje, não entendi que papel exerciam no parlamento. Mas nossas tarefas não acabavam por aí. As noites eram dedicadas às reuniões de pauta que iniciavam sempre às 20 horas em uma sala na UNB. Era o momento das tais análises de conjuntura, que varavam madrugadas e madrugadas e nos faziam sonhar com tantas e sonhadas revoluções. Aqui e ali até praticava algumas intervenções, mas a conjuntura era sempre maior que minhas análises. Nunca coincidiam com a dos colegas. Enfim, convenci-me de que análise de conjuntura era coisa mesmo para o Betinho, irmão do Henfil, que escreveu “Como se faz Análise de Conjuntura”, publicação de 1986 da Vozes que até hoje reside em minha pequena biblioteca.

09 Fev

Ensaio sobre o fuxico

Não, não se trata de um tema banal. Foi, inclusive, pivô de um tremendo alvoroço nos últimos dias. Espalhou-se com a velocidade de um raio a notícia de que o prefeito de Manaus havia se referido com desdém à comunidade dos tuiteiros, taxando-os de fuxiqueiros. A turma se sentiu ofendida. Numa demonstração de eficiência e importância do funcionamento dessa rede social, em pouquíssimo tempo a indignação ganhou a rua, ou melhor, os computadores e celulares de milhares de adeptos do Twitter. Cada um ao seu modo e de sua trincheira espalhava seu protesto num ritmo frenético de dar inveja ao marqueteiro do Obama. Construída a unanimidade daquele sentimento de defesa, tudo leva a crer que o prefeito tenha contabilizado adversários de forma gratuita. De minha parte, penso que tudo não passou de uma confusão conceitual ou, pra ser mais técnico, daquilo que os estudiosos da língua chamam de questão morfossemântica. Ora, fuxiqueiro, numa compreensão embasada mais na experiência do que no Aurélio, diz-se daquele ou daquela que, não se contendo em privatizar a informação, tem por hábito passá-la adiante, evocando, diga-se de passagem, um louvável espírito socialista. Ou seja, o fuxiqueiro é apenas um porta-voz dos fatos, ainda que alguns desses fatos possam ser futricas. Nesta perspectiva, pode-se deduzir que o prefeito, no fundo, fez um elogio aos tuiteiros, reconhecendo neles uma relevante contribuição à sociedade. Outra coisa, por outro lado, é o futriqueiro. Diz-se daquele ou daquela que pratica os mesmos hábitos do fuxiqueiro, mas, não contente em apenas socializar a informação, acrescenta a ela a roupagem que lhe convém, com o propósito sorrateiro de causar intriga, espalhar cizânia e dela tirar proveito. Ora, prefiro acreditar que o prefeito, homem de alta quilometragem rodada nos bastidores da seara política, não tenha se referido aos tuiteiros nessa acepção do termo, embora não se possa descartar haver entre eles alguns poucos chegados à futrica. Neste caso, talvez se enquadrem mais no conceito de pissiqueiro. Diz-se daquele ou daquela que acredita tanto em si, que se acha no direito de se intrometer em tudo e com todos. Há dois tipos clássicos: o primeiro dá pissica em tudo, mas reconhece suas ratadas e até pede desculpas ao pissicado; o outro, quando não acerta, põe a culpa no pissicado. É o chamado pissiqueiro pávulo e prepotente. Mas aí eu já estou me alongando muito nessa história. Paro por aqui, antes que algum bacabeiro pense que eu estou fazendo futrica.

02 Fev

O preço da modernidade

Foi-se o tempo em que havia um divisor de águas entre o expediente de trabalho e o período de descanso. No tempo de eu menino, lá em São Raimundo, a fronteira entre o trabalho e o ócio era sinalizada pelo apito meio engasgado que escapava da chaminé da serraria Rodolfo, do outro lado do igarapé, e invadia todos os lares e ouvidos do bairro. Os toques aconteciam infalivelmente às 7, 11, 13 e 17 horas e tinham um poder tão forte e autoritário, que as máquinas eram desligadas no meio de uma operação de corte de uma tora de madeira. A vida dos operários e, por consequência, a nossa eram reguladas e disciplinadas por aqueles apitos. O das 11 horas, por exemplo, indicava para nós, crianças, que o almoço estava posto. Não importava onde estivéssemos, na rua ou em casa de amigos. Saíamos em desenfreada carreira para ocupar lugar em um dos lados daquela comprida mesa na cozinha, porque a mãe já aguardava para nos servir um a um, como mandava o ritual. Hoje, com a modernidade e os avanços tecnológicos, as fronteiras entre o trabalho e o repouso perderam-se no tempo. Querem ver? Chegar a casa ao final do dia não significa mais afazeres encerrados. O terceiro turno tornou-se obrigatório. Afinal, é preciso acessar a caixa de imeils (que este meu computador insiste em me convencer de que são emails!), apagar os inconvenientes, ler e responder as mensagens pessoais e (por que não?) algumas do trabalho. Aproveitando a carona, é importante consultar alguns portais de notícias para se manter atualizado com os acontecimentos, sem descuidar dos portais de vendas pela internet, para não perder alguma promoção. Não dá pra se descuidar das músicas que diariamente são convertidas para MP-3. Há que se organizá-las em pastas com rigorosa classificação. Isso exige tempo. Se elas se acumulam desordenadamente, o quadro fica caótico. Como lidar com 10, 15, 20 mil músicas na hora da escolha? É preciso, também, manter o Ipod e o Iphone sempre sincronizados e estar atento para os novos aplicativos disponibilizados pela Apple para o Itunes. Já que o computador está ligado mesmo, não custa acessar a conta no Twitter, atualizar a leitura das mensagens e postar tantas outras para os meus seguidores, além de responder algumas em mensagens diretas. Tuiteiro que se preza não pode passar sequer um dia sem dar sinal de vida. Como se não bastasse, os filmes em DVD comprados nos últimos meses estão acumulados na estante. É necessário classificá-los por título, gênero, diretor e atores principais, caso contrário, na hora de querer rever algum não há como localizá-lo. Vencido pelo cansaço, o ponteiro se aproxima da meia-noite e eu me recolho para o sono dos exaustos. Mas não sem antes, já deitado e coberto pelo lençol, dar uma última tuitada com auxílio do Iphone. “Boa noite, planeta Terra!”

25 Jan

O Nobel de Obama

Sei que a abordagem do tema não está no contexto do que a gente chama de ‘no calor da hora’. Penso, entretanto, que o ofício da crônica não é o de estar sempre em cima do lance. É, também, o exercício da paciência de acompanhar em silêncio os acontecimentos e, lá na frente, com as armas da lucidez, do distanciamento e das informações, empreender análises mais calcadas nos fatos do que nas versões. Digo isso a propósito de ter-me flagrado esses dias, portanto depois dos fatos consumados, matutando sobre as razões que teriam levado Barack Obama a ser ungido com o Prêmio Nobel da Paz de 2009. Francamente, até onde a memória alcança, não dá pra captar um feito extraordinário que justifique a importante honraria. É certo que não dá pra desconhecer a relevância histórica do fato dele ser o primeiro negro a assumir a presidência do, até então, país mais poderoso do mundo. Mas daí ser merecedor do prêmio, como diria minha mãe, são outros quinhentos. Na minha humilde percepção, o Nobel da Paz deveria levar em conta atributos e feitos que marcassem longamente a história de vida do contemplado. Estou aqui a me lembrar dos premiados Martin Luther King (1964), Madre Teresa (1979), Dalai Lama (1989), Nelson Mandela (1993), para ficar só nesses exemplos. Não é o caso, convenhamos, de Obama. Alimenta-me a crença de que ele primeiro foi agraciado, para, só depois, mostrar a que veio, numa estranha inversão de princípios que desconsidera a história de vida construída e aposta na futura, o que, no seu caso, parece estar frustrando as expectativas. Outro dia, li nos jornais uma declaração sua ratificando a “guerra contra o terrorismo” que, não fosse a legenda, poderia sem susto ser atribuída a Bush Jr. Mais recentemente, deparei-me com artigo onde Noam Chomsky revela que o reconhecimento apressado do golpe militar que estraçalhou a democracia hondurenha em junho do ano passado e o consequente apoio ao suspeito processo eleitoral teriam garantido, como justa recompensa, o direito ao uso de uma base área chamada Palmerola, de grande valor estratégico para os Estados Unidos naquele país. Em outras palavras, a luta pela paz continua, companheiros, desde que não fira os nobres e humanitários interesses americanos.

19 Jan

A nova cara da ciencia

Certas conquistas são marcadas por discrição e silêncio, mas chega o momento em que precisam ser partilhadas publicamente, sob pena de, por falta ainda de uma cultura que lhes assegure vida permanente, elas correrem risco de descontinuidade. E, diante disso, o melhor caminho mesmo é construir cumplicidade com quem financia e se beneficia dessas conquistas: a sociedade. Refiro-me ao que vem acontecendo com algumas instituições públicas da área de saúde no Estado. Tradicionalmente limitadas à prestação de serviços e atendimento, elas começam a quebrar esse paradigma. Ao lado dessa competência que lhes é inerente, passam, também, a investir em pesquisa científica básica e aplicada. Com isso, saltam da mera repetição de procedimentos ditados por outros centros para a produção de novos conhecimentos, criando, assim, um ciclo virtuoso em que a prática tradicional, transformada em laboratório, gera avanços científicos que dão retorno a essa mesma prática. De modo bem objetivo, tais instituições passam de meras repetidoras a produtoras de conhecimento, ganhando competitividade e se transformando em centros de referência para o Brasil e para o mundo. Exemplo desse novo modelo é a nossa Fundação de Medicina Tropical, que dispõe hoje de sofisticados laboratórios onde se realizam exames até pouco tempo impensáveis no Estado, sem contar com uma massa crítica que, além de pesquisadores locais, envolve 10 doutores seniores de altíssimo nível vindos de outros centros nacionais. Esse esforço, para revelar apenas um dos tantos avanços, permitiu aprimorar um moderno tratamento para leishmaniose. Poucos sabem, por outro lado, que o Hemoan, na mesma linha, deu um salto decisivo nesse misto de atendimento e pesquisa e hoje comanda um respeitado projeto voltado para o estudo de células-tronco, com enormes benefícios para os portadores de doenças cardiovasculares. A Fundação Alfredo da Mata segue a mesma fórmula. Começa a montar uma equipe de pesquisadores e inaugurou recentemente um laboratório de biologia molecular que nada deve a outros grandes centros de pesquisa. Enfim, são fatos animadores que demonstram a importância de se ter, de um lado, gestores comprometidos com a ciência e a inovação e, de outro, uma agência de fomento com ações voltadas exclusivamente para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado. A sociedade só tem a ganhar. Eis uma boa pauta.

12 Jan

A amassadeira

Sabia que com isso não se brinca. Minha mãe sempre nos alertava. Não prometa nada a uma criança sem cumprir. Claro que o fiz com a melhor das intenções. No meio de uma produtiva conversa sobre brincadeiras de minha infância, cravei o compromisso de que, tão logo sobrasse um tempinho, construiria uma amassadeira pra ele brincar. De pronto, a natural curiosidade dos seis anos instalou-se. Queria saber o que era. Fiz lembrá-lo da patriótica operação tapa-buracos da prefeitura, que havia premiado a nossa sofrida rua alguns dias atrás. Aquela máquina que tem um rolo de ferro pesado na frente, que passa em cima pra ajeitar a rua? Respondi que sim, era aquilo mesmo. Mas como “a gente” vai fazer? Percebi, então, a sutileza matreirice do discurso infantil, já se incluindo como parceiro naquela empreitada. Tolice mesmo acharmos que, dentro das limitações de sua linguagem, uma criança não saiba se valer das inúmeras artimanhas discursivas de seu mundo. Ledíssimo engano. Pois bem, a carga de cobrança foi tão cerrada nos dias seguintes, que me vi na contingência de juntar ações às palavras. “A gente” se sentou solenemente em volta da mesa para reunir a matéria-prima necessária à fabricação da tal amassadeira. Diferentemente do tempo de minha meninice, quando o quintal da casa era o repositório de tudo aquilo de que precisávamos para nossas brincadeiras, dei-me conta da absoluta carência de componentes para esse fim no apartamento. Arame e barbante. Tive que comprá-los na loja de ferragens mais próxima. Lata vazia do velho e bom leite Ninho. Havia, mas o progresso plastificara a tampa, o que inviabilizava a obra. Fomos obrigados a sacrificar outro produto similar cuja tampa era de lata. Iniciamos a linha de produção. Com um parafuso descoberto no fundo de uma gaveta e o amassador de carne fazendo a vez de martelo, furamos um pequeno orifício no centro das laterais da lata, por onde fizemos passar um pedaço de arame de um lado a outro. E o pequeno fazia questão de colocar a mão na massa! Em seguida, unimos as duas pontas de arame, onde amarramos o barbante que permitiria arrastar o veículo. A inauguração foi solene. Passei-lhe o comando do equipamento e, com a expressão plena de felicidade, Eric começou a circular entre a cozinha e os quartos, com ar de quem havia acabado de conseguir um extraordinário feito tecnológico. Aos olhos de muitos, pode até parecer bobagem, mas a alegria estava no fato de ter construído o próprio brinquedo. Dei minha missão e minha promessa por cumpridas.

04 Jan

Em busca de um tema

Diante dessa infernal maquininha chamada computador, fico a explorar meu disco rígido em busca de assunto para o artigo da primeira terça-feira do ano. Não pode ser um tema qualquer. Afinal, como se dizia antigamente, é de bom alvitre que se inicie o ano com o pensamento voltado para coisas boas que gerem perspectivas favoráveis para os 365 dias e seis horas seguintes que iremos enfrentar. Fico achando que seria interessante discorrer sobre a frustrante conferência em Copenhague, na Dinamarca, mas logo descarto essa possibilidade. Como diria dona Maria do Carmo, minha mãe, diante dos fatos que lhe soavam incompreensíveis: “Que diabo é 10 que 9 não ganha?” Justamente os dois países que mais contribuem para o agravamento das doenças do Planeta – China e Estados Unidos – melaram as nossas esperanças de amenizar os estragos futuros! Sabemos que muito do presente já está irremediavelmente comprometido. Falar nisso, fico aqui a me lembrar das águas límpidas e sadias do belíssimo igarapé que separava os bairros de São Raimundo e Glória. Foi lá, no tempo de eu menino, entre sustos e sufocos, que eu e tantos colegas aprendemos a nadar. Aquele igarapé era o oceano da nossa infância. Dói no fundo da alma ver que ele simplesmente não existe mais. Pra onde terá ido tanta água? Tento buscar outro tema. Que tal falar das tantas promessas não cumpridas pelo prefeito da cidade? Não, não, os jornais, num lance de bom jornalismo, tiveram o cuidado de mostrar o tamanho do engodo. O povo agora que faça seu julgamento e afira o valor do seu voto. Oportunidade não faltará neste ano de tantas eleições. Lembrei-me agora: posso analisar o reconhecimento da mídia americana e europeia ao destacado papel político desempenhado pelo presidente Lula ao longo da última década. Mas aí seria obrigado a ressaltar, mais uma vez, que a mídia nativa deu pouca bola para o fato. Não, não vou falar sobre isso. Lava-me a alma a pergunta do cineasta Fábio Barreto durante debate no jornal O Globo: “Por que temos um presidente que é respeitado no mundo inteiro e no Brasil a mídia tenta destruí-lo, achincalhá-lo?” Que saber? Que me desculpe o Valmir, editor desta página de opinião, mas não vou mesmo falar sobre coisa alguma nesta primeira terça-feira do ano. Bom dia e bom Ano Novo.

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